quarta-feira, 28 de março de 2018

Vivendo como igreja relacional 08

VIVENDO COMO IGREJA RELACIONAL
Escrito por Wayne Jacobsen. Traduzido por Ezequiel Netto

08 - Nós já temos um pastor! Liderança na Igreja Relacional. Dezembro de 2002.
O que Jesus tinha em mente quando falou sobre liderança na incrível comunidade do corpo de Cristo?
Por Wayne Jacobsen em colaboração com Kevin Smith, um bom amigo da Austrália. Este artigo surgiu de uma conversa que começou naquele país.
Esta é a melhor definição que já ouvi sobre liderança espiritual: se você tiver que ser pego em sua pior falta, por quem você gostaria de ser pego?
Se você realmente quer experimentar a plenitude da vida em Jesus, você não gostaria que fosse alguém que te tratasse com a mesma gentileza que Jesus tratou aquela mulher no poço, enquanto te mostrasse a verdade de uma forma que você pudesse compreender e seguir para a liberdade em Deus?
Ainda não ouvi uma afirmação que mostre de forma tão simples e clara como Jesus viveu, e o que Ele falou com seus discípulos sobre liderança em sua igreja. Até mesmo a lista de Paulo de qualificações em Timóteo e Tito mostra que aqueles que andaram com Jesus um tempo suficiente para serem transformados por Ele de maneira que poderiam facilmente serem reconhecidos em suas famílias, na comunidade e na liberdade de viver a verdade, e assim serem capazes de ajudar outros da mesma forma que Jesus faria.
Talvez a pergunta que mais ouço nas viagens é “Como você vê o funcionamento da liderança entre as pessoas que adotaram o cristianismo relacional?”. A questão por si só mostra dois problemas importantes com nossa percepção de igreja.
Primeiro, somos tão dependentes da liderança de homens e mulheres que muitos nem conseguem imaginar como viveriam sem eles. Isto é trágico, porque se nossa dependência não está em Cristo, nunca descobriremos o poder e a simplicidade do corpo de Cristo.
Segundo, nossa percepção de liderança está tão impregnada do gerenciamento e controle institucional que não conseguimos reconhecê-la sem os títulos e posições. Jesus disse que a liderança em seu reino não seria tão necessária, e funcionaria de uma forma totalmente diferente de como era feita no mundo. Infelizmente nos permitimos ser moldados aos padrões do mundo em termos de liderança.
Se possível, deixe de lado todos os conceitos humanos de liderança e releia o Novo Testamento com outros olhos. A liderança na família do Pai está claramente colocada nas mãos de Jesus como Cabeça, e no Espírito como aquele que nos mantém unidos, e nos posiciona no corpo do jeito que Ele deseja. Líderes humanos não são o principal foco no corpo de Cristo. Jesus enfaticamente mencionava isso e a maior parte das cartas jamais se referiam a estes.
“Mas havia líderes na igreja primitiva”, o povo protesta, e eu concordo com todo o coração. A pergunta importante é justamente “que tipo de líderes eles eram?”.
Entre vós não será assim!
“Então Jesus os chamou para junto de si e lhes disse: Sabeis que os que são reconhecidos como governadores dos gentios, deles se assenhoreiam, e que sobre eles os seus grandes exercem autoridade. Mas entre vós não será assim; antes, qualquer que entre vós quiser tornar-se grande, será esse o que vos sirva; e qualquer que entre vós quiser ser o primeiro, será servo de todos. Pois também o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir, e para dar a sua vida em resgate de muitos” (Mc 10:42-45).
Jesus advertiu claramente seus discípulos que, na ótica de Deus, o líder atua de um jeito diferente que no mundo porque não está baseado em gerenciamento. Até mesmo os livros atuais sobre liderança cristã são adaptações fracas do mundo dos negócios. Só por este fato já deveríamos parar e questionar.
Jesus não enxergava a liderança como o poder de comandar, mas como a paixão de servir as pessoas, compreendendo que isso é viver como filhos de Deus. Na última década, meu entendimento sobre liderança mudou completamente. Eu costumava ver isso em termos de poder - pensando que o líder era definido pela sua influência, poder institucional ou o valor de suas capacitações.
Não funciona assim com Deus. Aqueles que mais me ajudaram a crescer no amor do Pai, surpreendentemente, não tinham posições de poder, mas simplesmente me amaram o suficiente para mostrar o caminho para o coração de Deus, deixando-me decidir se eu queria mesmo seguir por ele. Na realidade, aqueles que encontro agora, e que são os mais transformados no caráter do Pai, não participam do poder das instituições que eu pensava ser tão essencial para o reino. Eles rejeitam qualquer coisa que não reflita a liberdade inocente de andar juntos, focados naquilo que agrada ao Pai.
A primeira pessoa que encontrei vivendo desta forma me deixou chocado. Sempre que abria sua boca, a sabedoria jorrava de forma muito simples. Ele conhecia muito mais de Deus do que eu jamais poderia esperar, e seu espírito calmo espelhava a natureza de Jesus da mesma forma que eu lia nos evangelhos.
Ele tinha sido pastor por vários anos, mas preferiu sair durante uma brutal briga congregacional, em vez de usar suas táticas para assegurar sua posição. Nos 15 anos seguintes ele entregava jornais, e eu pensava que fosse apenas para pagar as contas até conseguir outra posição ministerial. Eu estava errado! Mas não percebi isso até o dia em que falei com ele que estávamos considerando-o como um futuro presbítero e possivelmente como um líder de tempo integral.
Para minha completa surpresa, ele ouviu por um tempo e sacudiu a cabeça - “Só não estou interessado”, ele disse. Quando o questionei sobre esta reação, ele simplesmente riu e disse que eu compreenderia um dia.
Penso que agora compreendo o que ele queria dizer. Aqueles que atuam mais eficazmente na liderança no corpo de Cristo não precisam de títulos, salários ou posições de autoridade. Na realidade, estas coisas apenas nos distraem do chamado de Deus. Aqueles que estão sendo transformados pela vida de Cristo sabem que existe um conflito inerente entre autoridade espiritual e poder institucional. Infelizmente, a maioria das pessoas nas instituições não compreende esta realidade, e continua sendo ferida por aqueles que atuam como líderes e falham em reconhecer que a verdadeira liderança Deus generosamente disseminou através do corpo. Talvez precisemos pensar de uma forma diferente.
Vidas transformadas, não credenciais.
Eu nunca vou esquecer a primeira vez que vi "Rev. Wayne Jacobsen” pregado sobre a porta do meu escritório. Mesmo com minha mentalidade profissional do ministério há 27 anos, foi um choque. Eu tinha 22 anos, com um bacharel em teologia e duas semanas de experiência em casamento. Como eu imaginava ser um líder no corpo de Cristo? Seria engraçado agora se não fosse tão trágico. Mesmo que Deus tenha usado esse tempo em minha vida, a despeito de eu não compreendê-lo suficientemente, agora percebo o quão pouco a minha vida naquela época refletia as prioridades de Deus.
Embora não tivesse capacidade de reconhecer isso na época, hoje compreendo que era movido menos pelo desejo de servir a outros, do que por saciar meu ego ao exibir minhas habilidades na oratória, demonstrando meu valor em influenciar o máximo de pessoas possível. O que era mais estranho é que o povo fazia isso sem mesmo questionar se era vontade de Deus.
Hoje as pessoas são qualificadas para a liderança baseando-se em eu grau universitário, eloquência, conhecimento bíblico ou sua capacidade de atrair multidões, gerenciar a visão ou manipular pessoas para ajudá-lo a alcançar o alvo. Se eles recebem um salário de uma instituição religiosa, ou possuem um título, cremos que eles são líderes, mesmo que suas vidas não reflitam a vida de Deus.
Algum dia isso vai mudar? Não deste lado da eternidade! Produzimos uma completa indústria de seminários e posições institucionais para “preparar” pessoas para conduzir nossas instituições religiosas. Eles saem com uma dívida de 30 mil dólares e a necessidade de encontrar uma carreira para justificar essa despesa. Enquanto passava esse período, eles nem mesmo tiveram tempo de serem transformados pela vida de Cristo e demonstrar isso na vida pessoal. Não me admiro que existam tantas falhas e erros entre aqueles que buscam liderar no corpo de Cristo.
Homens e mulheres, em sua maioria bem-intencionados, entram para o “ministério” por todas as razões certas, mas permanecem por todas as razões erradas. O Novo Testamento reconhece os líderes pela evidência de uma vida transformada que se manifesta numa conexão vital, diária, dinâmica e relacional com o Cabeça. As pessoas podiam testemunhar que eles tinham estado com Jesus. Não importava o dom que possuíam, ou os que não tinham, só se o caráter deles foi transformado a tal ponto que eles tratariam aos outros da mesma forma que Jesus faria - com a mesma combinação de verdade e bondade.
Por isso que é importante que cada crente esteja completamente familiarizado com o Jesus da Bíblia, pois a única maneira de reconhecermos uma liderança da parte de Deus em nosso meio é quando pessoas reflitam sua glória, sua verdade e seu comportamento na forma que vivem.
Complementos, não substitutos.
O corpo de Cristo só pode estar saudável onde cada membro estiver crescendo em relacionamento com Jesus e aprendendo a viver com sua visão da realidade. Ele é o Cabeça e, por isso, deve ter “a primazia em todas as coisas” (Cl 1:18). Isso só pode acontecer se cada crente experimentar a profunda amizade que Jesus quer com cada um de nós.
Infelizmente os líderes atuais nem sempre ajudam as pessoas a viverem essa realidade, mas oferecem um substituto - e as pessoas gostam disso. Como os filhos de Israel, muitas pessoas preferem deixar Deus de braços abertos esperando os tão chamados líderes que estarão com Deus em favor deles, para que possam então segui-los, mas apenas quando acharem que isso é o melhor.
Ao longo de dois mil anos essa visão de liderança foi removendo do povo de Deus a confiança na habilidade de Deus trabalhar no meio deles, tornando-os cada vez mais dependentes do clero e das instituições em relação à vida espiritual. Não é de se admirar que cada sistema religioso tenha criado um local, um santo homem guru especialista nos assuntos espirituais? Nem Jesus e nem Paulo concordariam com as regras que estabelecemos para a vocação de pastores, sacerdotes e “obreiros” que ocupam o lugar de Jesus no meio de seu povo. Jesus distribuiu estes dons para um grande grupo de pessoas que ajudam aos outros a colocar sua dependência em Cristo, não neles mesmos, em seus programas ou em seus livros!
Os primeiros apóstolos nunca viram isso como ameaça a sua posição no corpo, ou falarem coisas como “vocês não têm necessidade que ninguém vos ensine”. “Vocês têm a unção do Único Santo para conhecerem o que é a verdade e o erro”. Eles queriam seguidores de Jesus que aprendessem a confiar e ouvir diretamente dele à medida que vivessem em relacionamento mútuo uns com os outros.
Eles não estavam tirando a importância dos ensinos e aconselhamento, mas pondo cada coisa em seu lugar. Qualquer dom que temos no corpo é apenas um complemento para o agir de Deus em nosso meio, e não um substituto para isso. Na melhor das hipóteses, o toque de um líder é apenas temporário, ajudando pessoas ao longo da caminhada, quando rapidamente retornam para o seu lugar permanente como irmão ou irmã.
A liderança no corpo acontece simplesmente quando Jesus expressa a si mesmo pelo Espírito Santo por meio de uma vida submissa. Infelizmente a síndrome de estrelismo na igreja faz com que, muitas vezes, exaltemos e demos glória aos mensageiros, em vez de àquele que governa todas as coisas.
Ninguém pode assumir o lugar de Jesus no corpo. Por isso que Paulo falou para o povo não ouvir ninguém que distorcesse o evangelho de Jesus (Gl 1) e nem seguir aqueles que queriam impor a vontade de Deus para os outros (Cl 2). Aqueles que têm o coração de Jesus para o corpo serão sempre cuidadosos para que os outros cresçam dependentes apenas do próprio Senhor. Eles nunca privarão um irmão ou irmã da alegria de aprender como viverem livremente todos os dias em submissão ao próprio Cristo.
Servir, não controlar.
Há algumas décadas atrás, um pregador popular definiu liderança espiritual como a capacidade de “motivar as pessoas a fazer o que elas, de outra forma, não escolheriam fazer livremente”. Isso é manipulação e não liderança. Enquanto isso pode ser verdade no treinamento básico de sargentos, ou publicitários criando comerciais, isso é o oposto do que Deus tem em mente para seus filhos.
Praticamente todos atualmente conhecem bem o ideal bíblico de liderança pelo serviço, mas a maioria não percebe que quanto mais você tenta levar pessoas a fazer o que você pensa que é melhor, você está agindo como mestre, e não como servo. Você não está servindo a eles; eles estão te servindo.
Se alguém tem o direito de ser servido, este seria Jesus, que é antes de tudo o Rei dos Reis e Senhor dos Senhores. Mesmo Ele não tirou vantagem desta posição (quando certamente poderia ter), mas em vez disso dedicou-se a ajudar os outros a se estabelecerem na casa do Pai.
Nós mal podemos falar sobre liderança atualmente sem usar a linguagem de gerenciamento. Vemos líderes como aqueles que por poder, influência ou unção compelem outros a agir. Nosso sistema religioso pega pessoas com coração voltado para Deus e transforma estas em administradores de programas, que moldam pessoas a esses programas e pensam que isso é uma forma de amar. Aqueles que estão no topo de algum processo hierárquico institucional detêm grande poder sobre as pessoas, e também recebem grandes benefícios pessoais desta relação.
Quando Jesus viveu num corpo físico, Ele não tratava de poder da mesma maneira que os outros fizeram, o que deixou seus discípulos impressionados. Em vez de conquistar poder, Ele se esvaziava dele. Ele sabia que o caminho para ajudar pessoas na vida do Pai não era conduzindo-as para lá, mas deixando-as conhecer a realidade do Pai e ajudando-as a viver nela. Ele sabia que obrigar as pessoas a fazer algo jamais ia funcionar, e então Ele dava a elas a liberdade de escolha. Da mesma forma os primeiros discípulos tinham a graça de falar a verdade para as pessoas, e deixá-las com liberdade de escolha, de acordo com a consciência delas.
Qualquer líder piedoso fará o mesmo. Eles não criarão poderosas centrais de influência, dinheiro ou programas que podem ser gerenciadas ou exploradas, mas deixarão o corpo fazer o que Deus está direcionando.
Função, não identidade.
Cuidado com qualquer um que encontra sua identidade no corpo baseado em regras de liderança ou títulos ministeriais. Tão claro como Jesus nos falou todas as coisas, Ele falou a seus seguidores para não depender deste absurdo, baseando-se num falso entendimento da família do Pai. “Não sejam chamados de mestre, pois um só é o vosso Mestre, e vocês todos são irmãos. E não sejam chamados de líderes, pois um só é o vosso Líder, isto é, Cristo” (Mt 23:8,10).
A relação primária de cada membro no corpo é estar conectado com a Cabeça, e depois compartilhar sua vida uns com os outros como irmãos e irmãs. Não precisamos de uma maior identidade do que a de irmãos e irmãs em Cristo, e nada que Deus nos pede para ajudar uns aos outros vai alterar esta simples identidade. O fato que nossa cultura tem edificado a vida do corpo em torno de “líderes” e “não líderes” rouba a liberdade do corpo de compartilhar a vida de Deus em comunidade.
Aqueles que buscam credibilidade em sua graduação, em sua habilidade com a língua original das Escrituras, ou algum tipo de unção “extra” não experimentada pelos outros crentes, demonstra pela prática o quão pouco da natureza de Deus eles de fato compreendem. Qualquer um que se eleva acima dos outros destrói o valor de tudo o que Deus quer compartilhar através de si.
Então, o que os líderes fazem? As Escrituras nos dão três funções para os líderes:
1) Facilitador, não controlador: liderar no corpo é tão simples como ter iniciativas, pela direção de Deus, ações e atividades, e convidar outras pessoas a caminharem juntas, e compartilharem desta mesma experiência. Liderança não busca controlar um evento ou ter certeza que isso acontece porque pensam ser melhores, mas agir como catalisador que permita aos outros expressarem o que Deus revelou a eles. Isto acontece simplesmente quando alguém nos conduz num cântico, convidando pessoas para comunhão, ou planejando uma atividade externa. O dom de liderança pode deixar a bola rolar e ver se os outros vão pegá-la, e fazê-la rolar pra frente.
2) Para equipar, e não para fazer: em vez de assumir a centralidade do corpo com seus dons, o verdadeiro líder se encobre por trás do cenário para ajudar aos outros a crescerem na vida de Jesus e descobrirem como Deus quer expressar a si mesmo através deles. Como a melhor atuação é pelo exemplo, eles têm a vida disponível diante dos outros de forma que aprendam como se ligarão a Deus de forma significativa. Eles não vão se aproveitar da timidez das pessoas, e nem mantê-las sob culpa, mas as livrarão da vergonha de forma que se comprometam num relacionamento transformador com Deus. (Qualquer um que viva isso sabe que funciona melhor em pequenos grupos onde existe uma verdadeira troca de diálogos, do que em grandes reuniões). Como as pessoas se tornam livres para viver a vida em Deus, eles saberão como se relacionar com os outros e permitirão que o corpo reflita a perfeita imagem de quem Jesus é no mundo ao redor deles.
3) Zelar, e não policiar: Apesar de não tentar gerir o corpo, os líderes devem olhar além de si mesmos para ajudar o corpo a viver em plenitude. Eles vão procurar aqueles que exploram o rebanho em seu próprio benefício e conversar com eles honesta e amorosamente. Eles ajudarão aos novos crentes a discernirem entre os verdadeiros e os falsos crentes e encorajá-los a voltar para Jesus quando se distraírem.
Um rebanho e um pastor.
Quando Deus expôs os falsos pastores em Ezequiel 34, não disse que se livraria deles para conseguir outros melhores. Ele disse que removeria os falsos pastores e Ele mesmo pastorearia o rebanho. Ele conduziria as ovelhas para pastos seguros e as protegeria dos agravos de forma que jamais estariam temerosas ou seriam abusadas novamente.
Com estas instruções, por que tanta gente atualmente insiste em serem pastores? Isto não é o que diz I Pe 5. Pedro fala que aqueles chamados como líderes devem fazê-lo da mesma forma que Jesus fez, não por compulsão, não por ganância, nem por se assenhorear do rebanho, mas simplesmente sendo um exemplo da vida de Cristo para os outros.
Aqueles que tentam agir em benefício próprio estarão em uma posição insustentável. Eugene Peterson descreveu em sua tradução de Sl 14:3 como “ovelhas se revezam no papel de pastor”. Isto dá aos falsos mestres uma plataforma para enganar e manipular as pessoas e prendem pessoas bem-intencionadas em regras que distorcem a realidade da família de Deus.
Por que pensamos que precisamos de um líder a seguir, quando temos o próprio Líder conosco? Em João 10 Jesus disse que era o único pastor e aqueles que o seguissem seriam “um só rebanho com um só pastor”. Por que o corpo de Cristo é tão fraco e dividido atualmente? Porque marchamos após milhares de pastores, cada um alegando ter o manto de Jesus e conduzindo pessoas para o que eles acham ser o melhor.
Como você vive esta realidade na prática? Se você se encontra sobrecarregado por alguém que quer ser o seu pastor, você deve se afastar. Enquanto você pode se beneficiar de alguma coisa de Deus nele, viver sua vida espiritual através dele só te trará prejuízos. Não pense que tenha que desmontar as organizações deles - apenas viva na liberdade que Deus te deu.
Quando Deus te aproximar de alguém que foi moldado por sua vida, escute e preste atenção, mas sem se tornar dependente dele. Não seja paranóico de se tornar presa de um falso líder a ponto de perder as bênçãos das pessoas maravilhosas que Deus colocou perto de você.
E se você é um daqueles que foi liberto do desejo de governar sobre os outros, agora é o tempo de você parar. Não pense nem por um momento que Deus te levou para fora das estruturas para ficar isolado. Ele fez isto para te libertar das garras das instituições para que possa servir às pessoas de forma mais abrangente, numa vida de plenitude, nele mesmo.
Nós seremos um rebanho quando abraçarmos um só pastor. Somente quando todos aprendermos como viver nele, e seguir a Ele, que perceberemos a alegria e o poder da unidade que desejamos na igreja. Qualquer um que participar dessa família, não aceitará nada que seja menor.

Vivendo como igreja relacional 07

VIVENDO COMO IGREJA RELACIONAL
Escrito por Wayne Jacobsen. Traduzido por Ezequiel Netto

07 - Por que a igreja no lar não é a resposta? Fevereiro de 2002.
Após 20 anos de incontáveis orações sem uma solução, eu concluí que, ou Deus estava me ignorando, ou eu estava buscando a coisa errada. A ansiedade foi minha companheira constante, e digo muito honestamente que isso não foi divertido. Ela me dava socos no estômago quando eu menos esperava, e seus delírios me mantinham acordado durante a noite.
Sempre que vinham as circunstâncias que provocavam ansiedade, eu implorava que Deus mudasse isso, que eu não ficasse ansioso. Raramente, ou nunca, Ele respondia essas orações. Finalmente, eu concluí que o problema não estava nas circunstâncias, mas na ansiedade em si mesma. Minhas orações mudaram. Parei de implorar para Deus mudar minhas circunstâncias e, em vez disso, pedia para remover minha ansiedade. Desta vez, levou apenas uma década para eu perceber que essas orações não estavam funcionando e cresci incrivelmente frustrado por Deus parecer indiferente aos meus assuntos.
Eu não sabia que, no coração de Deus, meu problema não eram as circunstâncias que permitiam que minha ansiedade emergisse, e nem a ansiedade em si. O problema era que Deus queria corrigir o fato de que eu não confiava nele para trabalhar em minhas circunstâncias para realizar seu propósito. Meu desejo era estar no controle de minha própria vida, e alcançar o sucesso, pois pensava que precisava disso para provar meu valor para Ele, e depois para mim mesmo. Isso me mantinha aprisionado.
Ansiedade era apenas um sintoma de uma profunda necessidade que Deus queria expor e curar com uma revelação mais clara de quem Ele é e o que queria fazer em mim. Muitos de vocês já leram as histórias dessa caminhada nas publicações anteriores, e também no livro He loves me (Deus me ama, Editora Sextante). Além disso, Ele me mostrou o quão grande Ele é e quanto Ele me amava, e cada vez menos eu sentia ansiedade. Embora minhas circunstâncias não tivessem mudado, minha confiança nele mudou. Terminei não mais querendo que Deus satisfizesse minha agenda, mas permitindo que eu vivesse na dele todos os dias.
Em minha melhor sabedoria, eu tentava deixar Deus consertar minhas coisas erradas. A verdadeira liberdade não está em conformar minhas circunstâncias com minhas expectativas, ou simplesmente remover meus pensamentos ansiosos. Ele queria desenvolver um relacionamento comigo que levaria meu coração a uma posição de descanso em relação às circunstâncias que viriam em meu caminho. Por 30 anos eu busquei um substituto inadequado para a real solução.
Vi pessoas fazendo a mesma coisa em descobrir como ser parte da igreja de Deus. Vendo a fraqueza e falhas de muitas estruturas religiosas, eles se voltaram para igrejas nos lares como resposta para uma vida autêntica para a igreja. Infelizmente, eles também se desapontaram com isso.
Não é uma questão de forma.
Aqueles que leem meu site Body Life sabem que eu gosto de ver o corpo de Cristo encontrando formas de viver sua fé e comunhão em pequenos grupos caseiros, onde pessoas possam ser participantes ativos, juntos na caminhada de fé. A igreja primitiva encontrou nas casas o ambiente mais natural para as pessoas compartilharem juntas a vida de Cristo.
É fácil convencer as pessoas que a igreja no lar pode ser a resposta exata para tudo o que elas desejam experimentar na vida do corpo, isto é, até que elas estejam envolvidas em uma. Rapidamente se torna evidente que reuniões numa casa não representam, necessariamente, a solução para tudo com o que elas queriam romper. O que fazer com pessoas que querem usar o grupo apenas para suas próprias necessidades? Onde encontraremos pessoas dispostas a pagar o preço de compartilharem este tipo de vida juntas? O que faremos quando a reunião é entediante e estamos cansados de encarar uns aos outros?
Sair de um prédio maior para uma casa não responde, por si só, nada substancialmente. Enquanto proporciona a possibilidade de uma participação mais ativa e profunda nos relacionamentos, o fato de sentar numa casa para uma reunião não garante que as coisas vão acontecer. Se as pessoas não descobrirem a essência do que significa viver como igreja, mudar os mecanismos só dará suporte a uma plataforma onde alguém, com sede de liderança, comandará o grupo, ou puxará este para baixo tentando fazer de suas necessidades ou paixões pessoais o foco do grupo.
O que há de errado com a forma como fazemos igreja hoje tem muito menos a ver com as formas que usamos do que com a jornada em que estamos. Se procuramos igrejas nos lares para saciar as necessidades que as formas mais institucionais não conseguem atender, estamos propensos a ficar desapontados com nossa experiência com este tipo de igreja. Se começarmos com o foco em nossas necessidades, em vez de nos propósitos de Deus, terminaremos desapontados com os resultados.
Acomodação mútua de necessidades pessoais.
Como na minha tentativa de conseguir que Deus resolvesse minha ansiedade da minha maneira, muitos de nós estamos programados para se relacionar com Deus através das necessidades. Se começarmos a edificar nossa ideia de igreja baseados nas necessidades pessoais, somente terminaremos frustrados com uma pobre imitação da verdadeira igreja que Deus criou para que abraçássemos. Se buscarmos um relacionamento com a igreja por precisarmos de aceitação, ou segurança, ou um lugar para exercer nossos dons, ou pessoas que nos amem de alguma forma, ou alguém que nos diga como viver em Cristo, já começamos numa direção errada.
Muitas pessoas nunca percebem isso porque as coisas que desejam, como estar livres da ansiedade, não são coisas ruins. É a forma como buscamos isso que representa uma verdadeira armadilha para nós. Um amigo meu, que era pastor denominacional por muitos anos, por fim definiu a religião organizada como “acomodação mútua de necessidades pessoais”. Alguns precisam liderar e outros serem liderados. Alguns buscam aceitação e outros se realizam em agir como se fossem salvadores. Alguns necessitam ir à frente e cantar, enquanto outros querem sentar e assistir um culto animado. Algumas pessoas têm paixão pelo ministério com crianças e outros só querem deixar seus filhos para que outros as discipline.
O problema é que a congregação vai existir apenas enquanto conseguir combinar essas necessidades. Quando conseguem, a congregação segue muito bem. Quando não conseguem, ficam enredados em fofocas e intrigas, e as pessoas saem em busca de outras congregações que atendam suas necessidades ou formam novas, com grupos diferentes no controle. E o ciclo começa novamente enquanto a maioria nunca percebe que a vida da igreja não é edificada com nossas necessidades pessoais, mas com o propósito de Deus com seu povo.
Mudar o local de reunião de um prédio para uma casa não resolve o problema. Se buscarmos a vida da igreja através de termos nossas necessidades atendidas por outros, encontraremos períodos de satisfação misturados com longos períodos de sequidão, descontentamento e frustração.
Dependência Absoluta.
Experimentar a alegria da comunhão autêntica começa quando percebemos que toda nossa dependência deve estar centrada somente em Jesus. Não temos comunhão por que precisamos disso. E também não é para atender nossas necessidades pessoais. A verdadeira comunhão só será conhecida quando nossa dependência em Cristo se derramar em nosso amor pelos demais. Conhecendo a alegria e liberdade da vida de Jesus, a questão não é ajudar alguém, mas compartilhar isso com os outros.
As Escrituras são claras. A vida verdadeira é fundamentada somente em Jesus. Não existe vida em nenhum outro - nem mesmo num ajuntamento correto de cristãos em casas ou prédios. Isto é o que Paulo quis dizer quando chamou Jesus de Cabeça da Igreja, declarando que o propósito de Deus para ele era ter “o primeiro lugar em todas as coisas”. Nossas necessidades não podem ser o foco da vida da igreja. A presença de Deus em nosso meio é.
Fomos ensinados erroneamente que precisamos ir à igreja para nos encher com a vida de Deus. Não é verdade! Nós só podemos nos encher da vida de Deus mediante relacionamentos transformadores com o Pai, por meio do Filho. Não fomos chamados para nos encher a nós mesmos na igreja, mas para vivermos cheios dele e, a partir daí, compartilharmos juntos esta vida de Cristo com o povo de Deus.
Aqui está o problema com a maioria dos que passam no ambiente da igreja atualmente, incluindo muitas igrejas nos lares: em vez de ensinarem as pessoas como viverem dependentes de Jesus, eles substituem esta dependência pela tentativa frustrada de assumir o lugar de Jesus na vida das pessoas. Em vez de ensinar às pessoas como viver em Cristo, eles as tornam dependentes das estruturas e reuniões, as quais chamam de igreja. Nossa expressão de igreja se torna outra coisa para ficar no caminho de pessoas vivendo profunda e completamente nele.
Mas pessoas que estão aprendendo a viver intensamente num relacionamento com Jesus encontrarão a verdadeira alegria ao compartilhar a vida com outras pessoas que estão fazendo a mesma coisa. Eles podem caminhar juntos por um momento, ou por anos, sem ter que manipular ou controlar uns aos outros. Porque estas pessoas vão perceber que Jesus é o único no controle de tudo.
Infelizmente muitos crentes não têm ideia de como viver desta forma. Parecemos satisfeitos por manter as pessoas dependentes de nossos programas e cultos. Isto explica porque tantas expressões de igreja sempre prometem mais do que entregam. Podemos lidar sempre com muitos métodos de igreja, mas se não fizermos isso de forma correta, todos os nossos esforços fracassarão. Se você precisar de ajuda, encontre algumas pessoas que vivem desta forma, as quais não estão reunidas em um “bando de discípulos”, e peça ajuda a eles.
A vida da igreja se desenvolve com um grupo de pessoas que estão focadas em Jesus. Se o foco estiver na igreja, você ficará sempre desapontado. Foque em Jesus e você o encontrará sempre edificando a igreja ao seu redor.
Em todo lugar um movimento.
Em todo lugar que vou agora, pessoas me perguntam sobre o “movimento de igrejas nos lares”, esperando que isso traga a resposta para a fome que têm pela verdadeira vida da igreja. Enquanto eu prefiro fortemente o ambiente relacional em vez do institucional, todo tempo que ouço a palavra “movimento” meu coração desanima. Estou convencido que no dia que chamarmos o que Deus está fazendo de ‘movimento’, este já começou a morrer. Tenho visto muitos movimentos indo e vindo - carismático, discipulado, libertação, cura, intercessão, batalha espiritual, profético, adoração, apostólico, só para citar alguns. Todos estes se tornaram enfraquecidos, e não foi porque Deus não estava participando deles, mas pelo fato de pessoas dedicarem seus esforços para servir suas próprias necessidades e ambições.
Chamar algo de ‘movimento’ infla nosso próprio senso de importância e nos separa da obra multifacetada de Deus que transcende qualquer forma particular de fazer as coisas. Há muitos anos atrás eu fazia parte de uma denominação que chamava a si mesma de movimento. Usávamos este termo para fazer com que as pessoas sentissem parte de algo mais significativo do que os crentes menos brilhantes, que não faziam as coisas do jeito que nós fazíamos. Penso que esta distinção deixava Deus magoado.
Rotular a alegria de compartilhar a vida de Cristo em nossas casas de “Movimento de Igrejas nos Lares” tira o nosso foco de Jesus e transfere para um simples método ou para as palavras de alguém que se autodenominou expert. Da mesma forma, se tiramos o foco de Jesus para as nossas necessidades pessoais, perderemos a alegria da autêntica vida da igreja.
Recentemente, ao participar de um encontro em Buffalo, Nova York, um amigo me entregou um novo livro do movimento de igrejas nos lares. O sub-titulo quase me deixou assombrado: “... do homem radical que está conduzindo esta revolução”. Eu considerava um dos autores como amigo suficiente e pedi que me explicasse aquilo, pois a capa daquele livro era quase uma blasfêmia.
Se a igreja é mesmo a obra de Jesus, e se Ele tem a primazia em tudo, como alguém pode dizer que conduz o que Deus está fazendo? A igreja é obra de Deus ou não é. Por favor, entenda, não penso que sejam homens maliciosos que causam dano à igreja de Deus. Honestamente, eles desejam ver a igreja chegar a algum tipo de plenitude, liberdade e vida. Contudo, na forma que eles caminham, demonstra que enquanto entenderem tão pouco dos caminhos de Deus, eles conhecerão menos ainda de seu caráter.
Enquanto seus livros destacam de muitas formas que Deus pede que compartilhemos sua vida juntos, eles nos laçam com a noção envenenada que podemos produzir esta vida por praticarmos certos mecanismos ou por seguirmos determinado líder. Tais ensinamentos realmente não atingem as prioridades defendidas por causa da imposição de uma estrutura que vai justamente prejudicar estas prioridades.
Com certeza meu amigo não concorda comigo. De fato, como ele disse, “o livro está vendendo muito”. Não tenho dúvida disso. Parte da razão porque criamos movimentos é porque pessoas querem modelos que pensam que podem simplesmente implantar em suas próprias comunidades.
Super Modelos.
Muitas pessoas me perguntam sobre um modelo de igreja, esperando que algum livro pudesse trazê-lo. Não gosto de desapontá-los, mas eu nem mesmo creio que exista um modelo que eles possam adotar a fim de produzir a vitalidade da comunhão autêntica. Esta não é produzida por mecanismos, mas no coração das pessoas que Deus está transformando para serem como Ele mesmo.
Você pode pegar o melhor manual bíblico que exista no mundo e se você implantar seus métodos, em vez de aprender como viver dependente de Jesus, isto ainda será apenas um substituto para a sua presença, em vez de um lugar onde os companheiros peregrinos compartilham a vida em comunhão.
Jesus não nos deixou com um modelo a ser edificado, mas foi um guia a ser seguido. Experimentamos a vida da igreja não porque encontramos certo método ou um certo lugar, mas porque aprendemos a ouvir Deus juntos e deixamos que Ele nos ensine como compartilhar sua vida. Se substituímos este processo por qualquer método ou modelo, terminaremos seguindo isto em vez de Jesus, e edificando uma imitação em vez do verdadeiro. Não existe maior distração para a qual Deus quer nos alertar do que quando damos os nossos maiores esforços para fazer algo grandioso para Deus. Ele não nos pediu para trabalharmos para Ele, mas com Ele.
Fique atento para qualquer modelo ou um suposto líder que queira te ensinar o que fazer, em vez de ajudá-lo a ouvir Jesus. Existem líderes verdadeiros no corpo de Cristo atualmente? Com certeza! Mas eles não estão encabeçando movimentos ou inventando modelos. Eles estão ajudando pessoas a conhecerem quem Jesus realmente é, e aprenderem como segui-lo. Religião resulta quando homens e mulheres, com suas melhores intenções, melhores atividades, e melhores programas, tentam realizar o trabalho de Deus. Isto sempre nos conduz a programações bem intencionadas, que farão algo de bom, mas nunca trarão os grandes frutos que Deus pretende e que só Ele pode realizar.
Muitos pensam que estou tão preocupado com a religião organizada pelo fato de eu ter sido afetado pelo seu pior lado. Isto não é totalmente verdade. Penso que o maior perigo vem não quando ela é obviamente falha, mas quando funciona bem - dando às pessoas uma experiência estética ou um lugar para aliviar a culpa, mas perdendo o compromisso verdadeiro com o Rei da Glória. Quando somos convencidos que sentarmos na mesma sala ou cumprimentarmos brevemente no estacionamento é comunhão verdadeira, perderemos a maior alegria dos relacionamentos fortalecedores que nos ajudarão a corresponder melhor ao que Deus está fazendo conosco.
Não aceitamos substitutos.
O que amo na obra do Espírito Santo em nossos dias é que Ele não é dirigido por uma organização, um livro ou um pregador carismático. O Espírito de Deus está criando uma fome em seu povo que desafia os limites da religião ou uma forma particular de fazer as coisas, levando-os a beber profundamente de sua presença e compartilhar uma vida efetiva com outros parceiros de caminhada.
Algumas pessoas estão encontrando outros com a mesma fome dentro das congregações mais tradicionais, e outros são encontrados fora delas. Se você ainda não encontrou pessoas como estas, não fique desapontado. Deus ainda não fez todas as conexões que Ele deseja fazer. Apenas não negocie a paixão que está em seu coração com uma sombra da vida da igreja, perdendo a coisa real.
A verdadeira vida da igreja permite Jesus ter a primazia em todas as coisas, e encoraja pessoas a conhecê-lo nas alturas. Isto liberta as pessoas que estão caminhando para serem transformadas por Deus a serem autênticas, e não se conformarem a nada ou precisar de fingimento. Isto mostra a elas como estarem envolvidas na vida de cada um, e não manipular os outros, mas encorajar a grande obra de Deus em suas vidas.
Por que isso é tão difícil de encontrar? Pode ser porque muitos crentes estão focados em suas próprias necessidades e não saibam como se ligar com outros em verdadeira comunhão. Pode também ser por estarem acomodados em um modelo pobre, que traz benefícios de certa forma, mas que anulam os desejos mais profundos para uma autêntica vida no corpo. Ou que eles nunca aprenderam a satisfação de deixar Jesus ser o Cabeça da igreja.
Se não agirmos corretamente, não importa onde ou como nos reunimos. Ainda estará centrado em nós, e muito aquém da glória de Deus. Por que você não pede a Deus que te ensine a deixar Jesus ter a primazia em seu coração, e te ajude a encontrar pessoas para compartilhar esta paixão? Não consigo imaginar uma oração que mais agrade a Deus e, quando isso acontecer, Ele te mostrará como e onde você poderá viver esta vida nele.

Vivendo como igreja relacional 06

VIVENDO COMO IGREJA RELACIONAL
Escrito por Wayne Jacobsen. Traduzido por Ezequiel Netto

06 - Por que não vou mais a igreja?
Este texto, publicado na edição de maio de 2001 de BodyLife (www.lifestream.org), vem circulando pelo mundo para oferecer uma perspectiva e uma argumentação capazes de ajudar as pessoas a compreender como é possível abraçar a vida em Cristo por muitas outras formas de relacionamento além das que a tradicional vida eclesiástica costuma proporcionar. É uma resposta a todos aqueles que defendem a necessidade de se pertencer a uma instituição determinada para fazer parte da Igreja.
Anexo do livro Por que você não quer mais ir à Igreja, Ed. Arqueiro, pag. 135.
Prezado Irmão de Fé,
Agradeço muito sua preocupação comigo e sua disposição de colocar questões que causaram essa preocupação. Você sabe que a forma como me relaciono com a Igreja é um tanto anticonvencional, e há até quem a considere temerária. Creia-me, compreendo bem sua preocupação, pois eu próprio também costumava pensar dessa maneira e cheguei mesmo a ensinar outras pessoas a fazê-lo.
Se você está satisfeito com o modo de viver da igreja institucional, talvez não goste do que vai ler aqui. Meu objetivo não é convencê-lo a ver essa incrível Igreja da mesma forma que eu, e sim responder a suas perguntas o mais aberta e honestamente que puder. Mesmo que acabemos não concordando, espero que entenda que nossas diferenças não nos distanciam necessariamente enquanto membros do corpo de Cristo.
A que Igreja você vai?
Jamais gostei dessa pergunta, mesmo quando era capaz de responder a ela citando uma organização específica. Conheço seu significado cultural, mas ela se baseia numa falsa premissa - a de que a igreja é um lugar aonde se pode ir, da mesma maneira como se vai a um evento, a uma festa ou se frequenta um grupo organizado. Penso que Jesus vê a Igreja de modo totalmente distinto. Ele não fala dela como de um lugar aonde se vai, mas como um modo de viver na relação com Ele e com os que O seguem.
Perguntar a que igreja eu vou é o mesmo que perguntar se eu vou ao Jacobsen. Como eu responderia isso? Eu sou o Jacobsen e onde eu for o Jacobsen vai estar. “Igreja” é uma palavra que não identifica um local ou uma instituição. Ela descreve um povo e como os membros desse povo se relacionam uns com os outros. Quando se perde isso de vista, nossa compreensão da Igreja fica distorcida e deixamos de usufruir a alegria que ela pode nos dar.
Você não estará apenas tentando escapar da pergunta?
Sei que o que eu disse pode soar como um mero jogo de palavras, mas as palavras são importantes. Quando atribuímos o termo “igreja” somente a cultos semanais ou a instituições que se auto intitulam “igrejas”, perdemos o significado profundo do que seja viver como corpo de Cristo. Isso nos dá uma falsa sensação de segurança, fazendo com que achemos que, por comparecer a um encontro uma ou mais vezes por semana estamos participando da Igreja de Deus.
Da mesma forma, ouço as pessoas falando em “abandonar a igreja” quando deixam de frequentar determinada congregação. Mas se a Igreja é algo que somos, e não um lugar qualquer a que comparecemos, como é possível abandoná-la, a não ser que abandonemos o próprio Cristo? E, se considero apenas determinada congregação “minha igreja”, não estarei deixando de acolher outros irmãos e irmãs que não freqüentam a mesma congregação que eu?
A ideia de que apenas aqueles que se reúnem nas manhãs de domingo para assistir a uma celebração religiosa ou a uma palestra fazem parte da Igreja - excluindo os demais - seria estranha a Jesus. A questão não é onde estamos num determinado momento do fim de semana, e sim como estamos vivendo com Jesus e com outros fiéis ao longo da semana.
Mas não precisamos de reuniões regulares?
Eu não diria que precisamos de reuniões. Se vivêssemos num lugar onde não fosse possível estar com outros fiéis, Jesus certamente seria capaz de cuidar de nós. Assim, eu colocaria a pergunta de forma um pouco diferente: as pessoas que estão aprendendo a conhecer melhor o Deus vivo vão querer ligações reais e significativas com pessoas que compartilham a mesma crença? Evidentemente! O chamado para o reino de Deus não é um convite ao isolamento. Todas as pessoas que conheço e que estão florescendo na vida de Jesus sentem vontade de entrar em autêntica comunhão com outros que possuem essa mesma crença.
Essa espécie de comunhão, porém, não é fácil de achar. Periodicamente, nessa jornada, há ocasiões em que não parecemos encontrar outros crentes com quem partilhar nossa fome de Deus. Isso acontece, sobretudo, com quem percebe que se conformar às expectativas das instituições religiosas pode acabar enfraquecendo seu relacionamento com Jesus. Talvez eles se sintam excluídos por fiéis com os quais mantiveram durante anos uma amizade estreita. Mas quem passa por essa situação não a vê como uma ameaça. É sem dúvida incrivelmente doloroso, e essas pessoas irão procurar outros crentes profundamente desejosos de partilhar a jornada.
Minha expressão de corpo de Cristo favorita é onde um grupo local de pessoas escolhe caminhar juntas por um período na jornada, cultivando amizade íntima e aprendendo ouvir a Deus juntas.
Deveríamos estar aliançados a uma comunidade local?
A ideia do compromisso com determinada instituição é repetida com tanta frequência que a maioria de nós chega a acreditar que ela se encontra em algum trecho da Bíblia. Mas eu nunca a encontrei. Muitos de nós fomos levados a crer que se não tivéssemos a “cobertura do grupo” cairíamos no erro ou em pecado. Mas será que isso não acontece também no interior da nossa igreja particular?
Sei de muita gente que, apesar de não pertencer a qualquer instituição, não só desenvolve um relacionamento em grande profundidade com Deus como estabelece com outros crentes ligações mais intensas do que as que manteria dentro da instituição. Eu não perdi nem um pouco da minha paixão por Jesus ou do meu apreço por sua Igreja. Pelo contrário, ambos aumentaram muito, e com grande rapidez, nos últimos anos.
As Escrituras nos encorajam, isso sim, a sermos devotados uns aos outros, independentemente de qualquer instituição. Jesus deu a entender que sempre que duas ou três pessoas se reunirem em Seu nome Ele estará entre elas.
Claro que pode ser útil participar regularmente de determinada instituição. Mas nos enganamos totalmente quando acreditamos que a comunhão só se dá por frequentarmos o mesmo evento juntos regularmente ou por pertencermos à mesma organização. A comunhão se dá quando as pessoas partilham suas jornadas rumo ao conhecimento de Jesus e consiste numa partilha livre e honesta, numa preocupação genuína com o bem dos outros e o estímulo mútuo para seguir Jesus, não importando o caminho pelo qual Ele nos conduza.
Mas as nossas instituições não nos livram do erro?
Sinto discordar, mas toda grande heresia que oprimiu o povo de Deus nos últimos 2 mil anos proveio de grupos organizados com “líderes” que achavam que detinham com exclusividade o conhecimento da mente de Deus. Nessas instituições, cada movimento de Deus em direção aos que tinham verdadeira fome dEle era praticamente rejeitado. Muita gente foi excomungada ou executada por seguir a Deus.
Se é na instituição que você espera obter segurança, receio que esteja sumariamente equivocado. Jesus não nos disse que “ir à igreja” nos salvaria, mas que confiar nEle, sim. Deu-nos uma unção do Espírito para que pudéssemos saber a diferença entre verdade e erro. Essa unção é cultivada à medida que aprendemos Seus caminhos com base em Sua palavra e vamos crescendo mais próximos ao Seu coração. Isso nos ajuda a reagir quando certas expressões da igreja a que pertencemos se tornam impeditivas da obra de Jesus em nós.
Isso significa que as congregações tradicionais estão erradas?
Absolutamente não! Tenho encontrado em muitas delas gente que ama a Deus e está buscando crescer em Seus caminhos. Costumo visitar todos os anos umas 20 congregações diferentes que me parecem muito mais centradas no relacionamento do que na religião. Jesus está no centro de sua vida comunitária, e os que atuam como líderes são verdadeiros servos e não fazem jogo político de controle e manipulação, de maneira que todos são incentivados a se cuidar reciprocamente.
Oro para que mais pessoas se renovem assim na paixão por Jesus, na preocupação genuína com as outras e no desejo de servir o mundo com o amor de Deus. Mas creio que devemos admitir que ainda são exemplos raros nas nossas comunidades. Muitas resistem por um curto período, para depois, mesmo inconscientemente, passarem a oferecer respostas institucionais às necessidades dos seus membros, em vez de permanecerem dependentes de Jesus. Se isso ocorrer, não se sinta condenado caso Deus não o conduza junto com elas.
Então eu deveria deixar de ir à igreja?
Receio que essa pergunta também esteja mal colocada. Não creio que você vá à igreja mais do que eu. Todos somos parte dela. Faça sua parte da forma como Jesus lhe pede e nos lugares em que Ele te coloca. Nem todos nos desenvolvemos no mesmo ambiente.
Se você se reúne com um grupo de cristãos numa hora e num lugar determinados, e se essa participação o ajuda a ficar mais próximo de Jesus e de seguir a obra Dele em você, eu não acho, de modo algum, que deva sair. Tenha em mente, porém, que essa não é a Igreja, mas apenas uma das muitas expressões dela no local em que você vive.
Não se deixe enganar achando que só porque frequenta as reuniões está experimentando a autêntica vida em comunidade. Esta só acontece quando Deus o conecta com um punhado de irmãos e irmãs com quem você é capaz de construir amizades estreitas e compartilhar os verdadeiros desafios da jornada.
Isso pode se dar em congregações tradicionais, como também fora delas. Nos últimos sete anos eu me deparei com centenas, se não milhares, de pessoas que, cada vez mais decepcionadas com as congregações tradicionais, estão florescendo espiritualmente ao partilhar a vida de Deus com outros, na maioria das vezes em suas próprias residências.
Ou seja: reunir-se em casa é a resposta?
É evidente que não. Mas sejamos claros: por mais agradável que seja participar de cultos em grandes ambientes e ter mentores talentosos, o autêntico prazer da vida em comunidade não pode ser partilhado em grupos excessivamente grandes. Durante seus primeiros 300 anos a Igreja primitiva encontrou nas casas o lugar perfeito para se reunir. Os lares são muito mais adequados à dinâmica familiar, que é como Jesus descrevia Seu corpo.
Mas reuniões em casa não são solução para tudo. Já estive em reuniões caseiras doentes e também com pessoas que se reúnem em instalações maiores que conseguem experimentar a autêntica vida do corpo de Cristo em comunhão. Mas o tempo que dedico em reuniões, eu prefiro estar face a face com um grupo de pessoas. Sei que isso não é muito popular atualmente, pois as pessoas acham muito mais fácil assistir a uma apresentação afinada (ou não muito afinada), e voltar para casa sem ter que expor suas vidas, ou se preocupar com a vida das outras pessoas.
Ultimamente, o que mais importa para mim não é onde ou como eles se reúnem, mas se as pessoas estão ou não focadas em Jesus, e realmente ajudando umas às outras a se tornarem mais parecidas com Ele. Reuniões são muito menos importantes que a qualidade nos relacionamentos. Procuro pessoas assim em qualquer lugar aonde vou e sempre me alegro quando as encontro. Em nossa nova casa em Oxnard, encontramos alguns novos amigos e temos esperanças de encontrar outros mais.
Você não está simplesmente reagindo por mágoa?
Suponho que seja possível e o tempo dirá, eu acho, mas sinceramente não acredito. Qualquer pessoa comprometida com o corpo de Cristo irá se machucar às vezes. Mas existem dois tipos de ofensa. Existe um tipo de dor causada por um problema que pode ser resolvido com o cuidado adequado - como uma torção no tornozelo. E existe outro tipo de dor que só pode ser resolvida se afastando - como quando você põe a mão no forno quente.
Talvez todos nós já experimentamos algum tipo de dor ao tentar viver a vida cristã nas instituições. Por um longo tempo, muitos de nós ficamos por lá na esperança de que se algumas coisas fossem mexidas tudo ficaria melhor. Embora com algum sucesso de forma limitada, com momentos de renovação, também descobrimos que a conformidade que a instituição exige e a liberdade que a pessoa precisa para crescer em Cristo são incompatíveis uma com a outra. Isso vem acontecendo com cada grupo que se forma ao longo da história do cristianismo.
Você está procurando a igreja perfeita?
Não, e não imagino encontrar alguma neste lado da eternidade. A perfeição não é meu alvo, mas encontrar pessoas com as prioridades de Deus sim. É um tipo de pessoas que lutam por um ideal que compartilham juntas, e percebem que têm objetivos em comum.
Não guardo segredos pelo fato de eu ser completamente incomodado pela situação do cristianismo organizado. A maior parte do que chamamos “igreja” atualmente nada mais é do que apresentações bem planejadas com pouca conexão real entre os crentes. Os crentes são encorajados a crescer em dependência ao sistema, ou aos seus líderes, em vez de se ligarem ao próprio Jesus. Gastamos muita energia conformando as pessoas ao comportamento exigido pelas instituições em vez de ajudá-las a se transformarem aos pés da cruz!
Estou cansado de tentar ter comunhão com pessoas que só enxergam a igreja como um lugar onde passam duas horas semanais aliviando a culpa, enquanto vivem o restante da semana com as mesmas prioridades que o mundo. Estou cansado daqueles que dependem de sua justiça própria e não têm compaixão alguma pelas pessoas no mundo. Estou cansado de pessoas inseguras usando o corpo de Cristo como uma extensão de seu próprio ego, e o manipula para satisfazer às suas próprias necessidades. Estou cansado de sermões mais cheios de religiosidade que da liberdade do amor de Deus e os relacionamentos ficam em segundo plano, como exige uma instituição eficiente.
Mas nossas crianças não precisam das atividades da igreja?
Imagino que o que elas realmente precisam é serem integradas ao corpo de Cristo através da comunhão relacional com outros crentes. 92% das crianças que frequentaram a escola dominical, com todos os equipamentos e entretenimentos poderosos, abandonam a igreja quando deixam a casa dos pais. Em vez de encher nossas crianças com ética e regras, precisamos demonstrar como viver a vida cristã na coletividade.
Mesmo os sociólogos falam que o fator mais importante que determinará se a criança prosperará na sociedade é se ela teve amizades profundas e pessoais com adultos não parentes. Nenhuma escola dominical pode produzir isso. Conheço uma comunidade na Austrália que, após 20 anos compartilhando a vida cristã juntos como família pode dizer que nenhuma criança abandonou a fé por crescer no meio de adultos. Sei que posso estar exagerando aqui, mas é muito mais importante que nossas crianças experimentem comunhão verdadeira entre os crentes que os joguinhos e brincadeiras da programação infantil.
Qual a dinâmica do corpo de Cristo você procura?
Estou sempre procurando pessoas que buscam o Cristo Vivo. Ele é o centro da vida delas, da afeição e das conversações. Eles parecem ser autênticos e livres para sofrer quando se ferirem, para questionar o que não aceitam, para seguir a voz do interior, sem ter outros os acusando de divisão ou rebeldia. Busco pessoas que não desperdiçam dinheiro em construções extravagantes ou programações temporárias; onde as pessoas que sentam perto uma das outras não são estranhas; onde todos participam do sacerdócio a Deus em vez de assistir passivamente de uma distância segura.
Você não está dando uma desculpa para as pessoas ficarem em casa sem fazer nada?
Espero que não, embora eu saiba que tem esse perigo. Sei que algumas pessoas que deixam as congregações tradicionais terminam abusando da liberdade para satisfazer seus próprios desejos e perdem completamente a vida da igreja. Também não sou a favor daqueles que vivem pulando de igreja em igreja, que vão de um lado para outro, buscando o último mover, ou a melhor oportunidade de satisfazer seus desejos egoístas.
Por outro lado, a maior parte das pessoas que conheço, que estão fora do sistema, não é porque perderam a paixão por Jesus ou seu povo, mas porque a igreja tradicional perto delas não conseguiu satisfazer a fome que elas têm por relacionamentos. Elas buscam uma vida cristã mais autêntica e assumem um custo incrível por buscar isso. Acredite em mim, seria muito mais fácil seguir a correnteza, mas uma vez que você tenha experimentado a comunhão viva entre cristãos apaixonados, fica impossível se acomodar em algo menor que isso.
Esta visão não divide a igreja?
Não por si mesma. As pessoas causam divisões quando exigem que os outros se conformem a sua revelação da verdade. Muitos de nós somos acusados de causar divisões, pois a liberdade pode incomodar aqueles que encontram segurança no sistema religioso. E também não estamos tentando recrutar pessoas para abandonarem suas congregações. Vemos o corpo de Cristo grande o suficiente para abranger todo o povo de Deus, e Ele os quer unidos.
Uma das coisas ditas muitas vezes sobre as igrejas tradicionais é que as manhãs de domingo representam o horário mais segregacional na cultura americana. Reunimo-nos com pessoas que parecem conosco e gostam das mesmas coisas que nós. Descobri que agora tenho muito mais oportunidades de estar com pessoas numa dimensão muito mais ampla do corpo. Não exijo que as pessoas façam as coisas do meu jeito e espero que aqueles que enxergam isso de forma diferente parem de exigir que nos conformemos a eles.
Onde posso encontrar este tipo de comunhão?
Não é fácil responder isso. Pode estar bem distante de você ou com as pessoas que você já tem comunhão. Pode estar na rua de baixo, em seu bairro. Ou numa sala no local de trabalho. Você também pode se envolver num evangelismo em compaixão pelos necessitados e quebrantados em sua localidade, numa forma de expressar a vida de Cristo e encontrar outros com uma fome similar.
Não espere que este tipo de comunhão aconteça facilmente numa organização. Ela é orgânica, e Jesus pode te conduzir a ela exatamente onde você está. Busque a Ele para que coloque uma dúzia de pessoas ao redor de você com as quais possa compartilhar a caminhada. Talvez não sejam todos da mesma congregação que você. Eles podem ser vizinhos ou colegas de trabalho que seguem a Deus. Não seria este tipo de interconexão entre o povo de Deus um fruto incrível?
Não espere que seja fácil ou se desenvolva tranquilamente. Vai exigir algumas escolhas de nossa parte em ser obedientes a Jesus. Pode exigir algum esforço em abandonar velhos hábitos e estar livres para Ele edificar sua comunidade ao redor de nós, mas tudo isso vale a pena. Sei que isso incomoda algumas pessoas por eu não tomar regularmente meu banco nas manhãs de domingo, mas garanto que meus piores dias fora da instituição foram ainda melhores que os bons dias dentro dela. Para mim, a diferença é como ouvir alguém falar de golfe ou realmente fazer parte de um campeonato e jogar umas partidas. Ser igreja é como isso. Atualmente não precisamos de mais pregações sobre a igreja, mas de pessoas que estão simplesmente aprendendo a viver isso na realidade.
Pessoas ao redor de todo o mundo estão redescobrindo como fazer isso novamente. E você pode ser uma delas, deixando Ele te colocar em seu corpo, como deseja.

Vivendo como igreja relacional 05

VIVENDO COMO IGREJA RELACIONAL
Escrito por Wayne Jacobsen. Traduzido por Ezequiel Netto

05 - Razões para se afastar. Março de 2001.
“Você deve permanecer com ele. Somente desta forma Deus vai te abençoar!”
Ouvi estas palavras e fiquei tão chocado que, por um instante, duvidei de meus próprios ouvidos. Eu estava sentado à mesa de uma mulher que estava preparada para se divorciar do marido há dois anos. Eu sabia do abuso que ela sofria pelas mãos de seu novo marido, e que temia o risco que seus filhos do casamento anterior passavam ao continuar convivendo com ele.
Não tinha dúvidas de que a situação estava confusa. Muitos de nós choramos, oramos e aconselhamos a ambos a fim de desenrolar a situação. Poucos dias antes, outro casal me pediu para estar com eles, pois compartilhariam com ela uma palavra que o Senhor colocou em seus corações. Quando lançaram a bomba pra ela, e exigindo seu comprometimento tão inequivocadamente, eu percebi que alguma coisa estava desesperadamente errada.
Voltei-me novamente para Beth (este não é o seu nome verdadeiro). Ela estava tão abalada pelas palavras deles como também eu. Antes que ela pudesse falar, eu abri a porta para que saísse.
“Certamente, Beth, você sabe que palavras como estas somente são válidas no grau que confirmam o que Deus já pôs em seu coração. Se não, você é livre para não considerá-las”. No próximo instante ela nos contou que não concordava com o que acabara de ouvir. Ela estava buscando o Senhor diligentemente e se aconselhava com duas mulheres reconhecidamente piedosas na comunidade. Ambas confirmaram sua decisão por se separar.
“Então, sinta-se livre para seguir isso”, falei com ela. “Se Deus tem algo mais em mente, tenho certeza que esclarecerá isso para você”.
Fora da casa dela, o casal se lançou contra mim, quando estávamos no caminho de volta. “O que foi aquilo que você fez? Nós tínhamos uma palavra de Deus para ela e você deu a ela todas as desculpas que ela precisava para ignorá-las”. Nada do que falei pode acalmar a raiva deles, e eu sabia que se algo não acontecesse nas próximas semanas, eu não seria capaz de continuar servindo ao lado deles por muito tempo.
Da mesma forma que as Escrituras nos convidam a entrar de braços abertos nos relacionamentos, elas também nos advertem que nem todos os relacionamentos são saudáveis. Falhar em compreender isso leva muita gente a um relacionamento destrutivo que não apenas vai deteriorar a caminhada delas com Deus, como também cultivará uma atitude de cinismo para com os outros, que também os impedirá de ter relacionamentos saudáveis.
Não é uma saída fácil.
As Escrituras falam de forma inequívoca sobre o valor de caminhar com irmãos e irmãs na fé. O que cada um de nós sabe e vê por nós mesmos é apenas uma pequena parte do que Deus é. Ao nos conectar com outros irmãos e irmãs que estão descobrindo a mesma vida em Deus, começamos a ter uma compreensão mais completa dele. É por isso que Ele define seu corpo como “a plenitude daquele que enche tudo em todos”.
Quando aqueles relacionamentos funcionam bem, eles nos encorajam a permanecer na caminhada, nos consolam nos momentos sombrios e ajuda-nos a manter nossa confiança em Deus, quando somos tentados a colocá-la em outro lugar. Não existe maior tesouro neste mundo do que compartilhar este tipo de amizade com crentes que estão comprometidos com a obra de Deus em suas vidas.
Tudo o que escrevo aqui pressupõe que seja verdadeiro. Sei que tão facilmente estas palavras possam ser usadas como desculpas para os que querem viver solitários no corpo de Cristo. Faça isto e estará se arriscando. Não compartilho desta ideia, pois nosso Deus é um Deus de reconciliação e quer manter todas as coisas juntas em si mesmo.
Como estamos descobrindo seu coração, não vamos buscar desculpas para nos distanciar dos outros só porque o relacionamento passa por um momento difícil. Nenhuma amizade profunda que tive, que tenha atravessado por falta de compreensão, fraqueza humana e falha pessoal, me causou feridas e confusão. Se socorrer os relacionamentos sempre for algo difícil, jamais compreenderemos o quão maravilhoso um verdadeiro relacionamento em Cristo pode ser.
Contudo, muitas vezes me deparo com crentes que estão atormentados por relacionamentos onde outros crentes estão manipulando e controlando suas vidas. Querendo ser humildes e abertos, eles dão espaço em suas vidas para um tipo de aconselhamento errado, e são oprimidos pela culpa quando não conseguem satisfazer o que os outros esperam deles.
É por isso que o Novo Testamento não somente nos diz para amarmos uns aos outros profundamente, suportar uns aos outros nos momentos difíceis, e perdoar as falhas uns dos outros à medida que vão surgindo, como também nos adverte a reconhecer quando relacionamentos se tornam destrutivos para nos distanciarmos deles.
Não tenham parte com...
Paulo colocou isso nos termos mais simples possíveis, “não tenham parte com eles”. Ele usou esta mesma frase em uma variedade de circunstâncias para nos ajudar a reconhecer os sinais de que um relacionamento que estamos tendo com outro crente não está nos ajudando a conhecer Deus melhor e nem a segui-lo mais de perto. Ele nos adverte a manter-nos afastados deles, não em julgamento ou raiva, mas simplesmente porque eles não vão aceitar nossa paixão espiritual e para não nos conduzir por maus caminhos.
Isto nem sempre é fácil de reconhecer, especialmente quando vem de pessoas que cuidamos, ou até mesmo aqueles que nos ajudaram no passado. Pode ser, muitas vezes, a mais bem intencionada pessoa em nossas vidas que, involuntariamente, torna as coisas mais difíceis para nós em fazer a vontade de Deus.
Jesus encarou a realidade com um de seus amigos mais chegados. Quando contou a Pedro sobre sua viagem para Jerusalém, e sua eminente morte na cruz, Pedro se lançou em sua defesa, prometendo que tal fato não aconteceria. Seu melhor amigo se tornou a própria voz do diabo. Jesus teve que deixar claro pra ele o quão sedutor e mal orientado era seu amor, o que levaria Jesus a provar sua obediência ao Pai.
Reconhecer quando nossos relacionamentos com outros crentes nos leva para águas traiçoeiras não significa que temos que julgar as pessoas ou suas motivações. Temos apenas que reconhecer que suas palavras e ações estão mais nos prevenindo do que nos encorajando em servir a Deus. Não nos distanciamos deles por sermos superiores, ou porque eles se tornaram maldosos, mas simplesmente sabendo que eles nos levarão a tropeçar em nossas próprias motivações erradas. Seu desejo não vai produzir separatismo ou superioridade, mas um ambiente da vida do corpo onde você vive que seja propício para os verdadeiros encorajamento e crescimento espirituais.
Então, com que devemos tomar cuidado?
1) Com o fermento dos fariseus (Mt 16:6-12; 2Tm 3:2-5): Jesus preveniu seus discípulos a ter cautela com isso e Paulo se expressou muito bem quando falou daqueles com “aparência de piedade, mas negando seu poder”. Sobre quem eles estavam falando? Ambos se referiam àqueles indivíduos que sempre induziam pessoas a conformarem-se com seu padrão de moralidade. Porque a justiça deles está baseada na conformidade, ela é apenas um pretexto exterior que não reflete a verdadeira realidade interior. Eu conheci um irmão que deixou jovens casais em situação embaraçosa por induzi-los a confessar que tiveram relações sexuais antes do casamento, e que mantinham uma paixão escondida no armário.
Estas pessoas podem sempre justificar qualquer coisa que fazem mesmo que muitas vezes dão testemunho da disparidade entre o que aparentam ser e o que realmente são. Como fermento, esta tentativa de parecerem eles mesmos bons enquanto tentam mudar os outros é incrivelmente contagiosa e, antes que você perceba, você estará fazendo o mesmo com os outros. Como a justificação só pode vir pela transformação que Deus traz ao trabalhar em nosso interior, ninguém que tenha experimentado isso jamais vai forçar esta experiência nos outros. Eles sabem que simplesmente não vai funcionar.
2) Dos que causam divisões (Tt 3:10): estas pessoas pensam que podem julgar entre aqueles que pertencem e os que não pertencem a Deus. Desta forma, eles têm obsessão por controvérsia e fofoca, e deixam um rastro de relacionamentos quebrados por onde passam. Estes não são sempre fáceis de detectar, pois seus argumentos de pureza teológica disfarçam sua verdadeira inclinação. Eles amam o poder institucional e acusam os outros de promoverem divisão ao não se conformarem com o jeito deles de fazer as coisas. Só para lembrar, trazer preocupações honestas ou fazer perguntas difíceis não é ter espírito divisivo.
Como cada um de nós alcança apenas uma faceta da glória de Deus, e entendemos que nossa parte é a jóia inteira, o cristianismo está fragmentado em milhares de denominações com doutrinas favoritas e preferências pessoais no estilo de adoração que tem dividido o corpo de Cristo ao redor do mundo.
Quando estive no Nepal, antes de o cristianismo ser legalizado no país, testemunhei um incrível e intenso amor e unidade quando compartilhavam do sofrimento. Não demorou muito, contudo, logo após o cristianismo ser legalizado, que denominações de toda espécie entraram e dividiram o corpo de Cristo ao oferecerem um rendimento mensal para aqueles que se filiassem a eles. Não faça parte de uma divisão. Não seja atraído pela noção de que sua maneira de fazer as coisas é a melhor, ou a única coisa que Deus está fazendo no mundo, ou se encontrará girando num redemoinho de justiça própria e perderá a maior obra que Deus está fazendo no mundo.
3) De quem não podemos confiar (Fp 3:1-11): o erro principal da igreja primitiva foi abandonar a confiança na habilidade de Deus fazer sua obra e se esforçar em fazê-la pelo esforço pessoal. Em nada diferente do que também desvia os crentes atualmente. Aqueles que confiam na carne serão uma constante pedra de tropeço àqueles que querem aprender a vida de confiança. Quando você vê pessoas culpando outras ou elaborando listas de coisas que você deve fazer para ser um melhor cristão, saberá que está com pessoas que colocaram sua confiança em alguma outra coisa além do que Deus faz por si mesmo.
4) Dos pecados racionalizados (1Co 5:1-13): Todos nós lutamos contra tentações e pecados, e nossa avaliação permanente e honestidade sobre nossas fraquezas é o ingrediente chave para a verdadeira vida no corpo. Quando pessoas racionalizam suas falhas para justificarem a si mesmas, elas perdem a essência do que é viver como humildes aos pés de Jesus. Deus não nos ama porque não fazemos nada de errado, Deus nos ama porque Ele nos ama; e os pecadores são aqueles que Ele veio redimir. Não temos que mudar a definição de pecado para fazer nós mesmos justos, mas preferivelmente encontrar motivação em nossas próprias tentações para nos aproximar do único que pode nos transformar. Infelizmente só pensamos desta maneira para os pecados sexuais, mas a lista de Paulo aos coríntios também incluía coisas como ganância, idolatria, estelionato e calúnia.
5) Dos que querem ter a primazia (Cl 2:16-22; 3Jo 9): Se por ambição egoísta ou ideia errada do que é a liderança no corpo, muitas pessoas buscam ter o primeiro lugar em alguma expressão do corpo. Embora este lugar seja reservado apenas para Cristo, eles pensam que também pode ser deles, e agem de forma que suas opiniões prevaleçam, suas preferências sejam atendidas e seus planos vistos como os planos de Deus. Entendem que têm a responsabilidade de gerenciar a espiritualidade de outras pessoas e sentem-se ameaçados por qualquer coisa que não seja a obediência inquestionável. Você saberá que está perto de um desses quando te forçarem a escolher entre submeter-se a eles ou fazer o que você honestamente sente que Deus colocou em seu coração.
Afaste-se tranquilamente!
Certamente, qual de nós pode honestamente dizer que nunca caiu em uma ou mais armadilhas? Isto é o que faz deles tão destrutivos - eles nos oferecem exatamente o que nossa carne anseia: aceitação, sentimento de superioridade, e controle. Ande no meio de crentes que vivem desse jeito e você encontrará as desculpas perfeitas para ser como um deles. Devemos ficar distantes destes, pois roubam de nós a fome de ouvir e seguir a Deus diariamente.
A razão pela qual Paulo nos dá estas instruções é porque deveríamos seguir a liderança de Deus enquanto nos encoraja a manter-nos afastados de relacionamentos destrutivos e não nos sentir culpados por isso. Buscamos uma falsa noção de unidade no corpo de Cristo, pois muitos de nós sentimos a necessidade de ter comunhão com aqueles que causam feridas e destruição na vida do corpo.
Por favor, note que Paulo nunca pediu que nos afastássemos das pessoas do mundo. De que forma eles conheceriam o amor de Deus se não for através de pessoas como nós, amando-os no meio de suas piores falhas e pecados? O perigo das distrações não vem do mundo, mas dos que se dizem crentes, cuja noção distorcida da vida em Deus provê distrações fáceis em relação à essência de nosso chamado.
Quando João escreveu que muitos anticristos já tinham vindo ao mundo, ele não falava de pessoas perversas que se opunham ativamente a Jesus Cristo. Em vez disso, ele estava identificando aqueles que aparentemente estavam na fé, mas que criavam uma dependência a si mesmos em vez de levar as pessoas apenas para Cristo. Eles tinham espírito de anticristo porque tentavam assumir um lugar na vida dos fiéis. É um comentário trágico, mas, em nossos dias, muitos líderes da igreja atual sentem que vão atender seus chamados deixando pessoas dependentes deles. O resultado será sempre desastroso.
Certamente que ter a liberdade de se continuar não significa que devemos prosseguir. Pessoas que agem destrutivamente são, elas mesmas, pessoas quebradas e destruídas. Eles também precisam de amor. Se Deus te deu graça para ficar perto delas, para amá-las, você pode fazer isso sem comprometer o seu próprio relacionamento com Deus. De todas as maneiras, faça isso!
Mas quando você percebe que outro crente está te afastando do objetivo principal de conhecer a Deus, você não tem que dar muitas explicações. Não precisa confrontar, acusar ou tentar provar que você está certo. Você também não tem que reagir e se tornar como um justiceiro. Tudo o que tem que fazer é se afastar deles sem alardes, e gastar seu tempo no corpo de Cristo com aqueles relacionamentos que te estimulam a se aproximar de Deus e reconhecer suas obras em sua vida.
Como as demandas da vida nos pressionam por todos os lados, o tempo é muito curto para desperdiçar energias com outros crentes cheios de manipulação, fofocas e divisão. Quando você tem chance de estar com outros crentes, você não prefere encher-se de encorajamento, revelação e humildade?
Acima de tudo, a vida no corpo de Cristo não pode te levar a duvidar da habilidade de Deus trabalhar em você, mas te ajudar a confiar nele cada vez mais.
Depois que este texto foi publicado, eu tive a seguinte troca de e-mails com um leitor que esclareceu alguns pontos do artigo. Eu resolvi incluir aqui:
“Fiquei bastante incomodado quando li ‘Razões para se afastar’. Acho que os problemas vieram por causa de certa convicção que eu tinha acerca da Palavra que você inadvertidamente deixou de lado. Antes de tudo, todo conceito por trás dos dons do amor e graça de Deus é para nos capacitar a ser como ele, em sua plenitude. É o poder para sermos livres para obedecer com todo amor e devoção a ele, fazendo a reconciliação com os homens através de seu amor. Sei que você fez referência a este tipo de fé, mas falhou em apresentá-la em relação à mulher buscando o divórcio. Isto é problemático.”
A resposta de Wayne: Acho que a ilustração de abertura que escolhi foi muito pobre. Contei esta história na introdução apenas para demonstrar quão abusiva a liderança pode ser quando presume falar sobre a dor de alguém sem ao menos ouvir o que a pessoa está passando e o que está ouvindo do Senhor. “Razões para se afastar” está relacionado com manter distância de relacionamentos destrutivos no corpo de Cristo e não tinha o propósito de ser usado como justificativa para o divórcio. Sinto muito se a ilustração trouxe confusão ao artigo. Mas eu realmente aprecio o fato de você trazer isso a mim. Embora eu acredite que nenhum relacionamento humano esteja fora do âmbito da cura de Deus, eu também percebo em situações como as que usei aqui que é preciso o comprometimento de ambas as partes para trazer reconciliação, o que não foi possível naquele momento.