VIVENDO COMO IGREJA RELACIONAL
Escrito por Wayne Jacobsen. Traduzido por Ezequiel Netto
04 - O dar e a
generosidade na Igreja Relacional.
Novembro de
2000.
“Siga
o dinheiro!” As palavras assombrosas do “Garganta Profunda”, o
informante não identificado do Washington Post, provou ser a voz crítica que
revelou a corrupção na Casa Branca de Nixon.
Acho que isso é um eco interessante de
Ec 10:19, “o dinheiro é a resposta para
tudo”.
Quando as pessoas me perguntam por que
todos os pregadores da TV parecem a mesma coisa, eu mostro Eclesiastes para
elas. Quando me perguntam por que a religião organizada funciona da forma que
é, eu mostro Eclesiastes. Quando me perguntam como eu sei o que meu coração
exatamente quer, eu mostro Eclesiastes.
Em termos humanos, o dinheiro é resposta
para tudo. Como você o vê e o usa vai mostrar como você compreende a obra de
Deus em sua vida.
De todas as questões que ouço sobre a
vida na igreja relacional, “O que você
pensa do dízimo?” está na posição mais alta da lista, junto com “O que faremos com as crianças?” confesso
que atravesso as águas financeiras com muito cuidado, pois nada tem tido um uso
mais inadequado no meio do povo de Deus em nossos dias.
Geralmente os que falam sobre dinheiro
têm o objetivo de colocar suas mãos em uma quantidade maior para si mesmos.
Então me deixa fazer uma advertência desde o início: não existe crise
financeira aqui e, por favor, não nos envie contribuições por pensar que exista
um apelo velado para que se faça isso. Não há, e se é difícil pra você acreditar,
por favor, sinta-se livre para não ler mais nada.
Então, muito do que se diz nesta área
aponta para pessoas com um fardo pesado de culpa, ou induzidas a dar por falsas
promessas que Deus vai lhes retornar uma quantia maior de dinheiro. Corro o
risco de ser mal compreendido, pois quero que você descubra a alegria e
liberdade de ver as mãos do Pai, quando você dá algo, da mesma forma que em
outras áreas de sua vida. Não pretendo ter aqui todas as respostas, e nem
oferecer um tratado completo sobre este assunto, mas quero compartilhar com
vocês onde a caminhada tem me conduzido nesta área.
Jesus
e o dinheiro.
Jesus falou muito mais sobre dinheiro
que qualquer outro assunto, exceto sobre o relacionamento com o Pai. Ele disse
que nada revela mais nossas paixões do que o que entendemos como tesouro, ou o
que livremente compartilhamos como oferta a Deus.
Mesmo uma leitura apressada dos
evangelhos revela que eles falam mais de dinheiro do que de igreja, adoração,
ou mesmo oração. O evangelho nos alerta para não julgar a justiça ou
generosidade de Deus, e deixa claro que a vida abundante não tem nada a ver com
a quantia de dinheiro ou possessões que temos, mas na simplicidade de viver em
liberdade de sua justiça, descansar em sua paz e na plenitude de sua alegria.
A busca pelo dinheiro e as preocupações
que isto traz tem a capacidade de sufocar a vida do reino em qualquer um de
seus seguidores. É melhor dar dinheiro para os pobres do que deixá-lo possuir
seu coração.
Ele também diz que o coração sábio
usaria o dinheiro como ferramenta para o propósito de Deus no mundo. Ele pode
abrir portas e servir à necessidade de muitos, quando ele não te possui. Use-o
responsavelmente para si e ele pode ser uma benção para você e para os outros.
Guardá-lo faz com que suas promessas se tornem uma prisão para um coração
obscurecido.
Com a capacidade tanto para o bem como
para o mal, como Deus quer que lidemos com o dinheiro?
O
dízimo da congregação.
Isto costumava ser muito fácil para mim.
Enquanto eu crescia, fui ensinado que dez por cento de tudo que recebesse
pertencia a Deus. Eu devia a Ele os dez por cento, era o dízimo.
Eu o pagava como uma doação para
qualquer congregação local que eu frequentasse. Os responsáveis eram livres
para usá-lo de acordo com as necessidades da comunidade - para adquirir uma
propriedade, pagar salários, financiar programas e também para ajudar pessoas
em necessidade. Eu não tinha liberdade para dar aonde Deus me conduzisse a
fazer. Se eu quisesse dar para algum outro lugar, tinha que ser além de meu
dízimo. Era o dízimo da congregação.
Para ser honesto, nunca estive
completamente confortável com este entendimento, percorrendo as linhas da
Bíblia. Certamente que Abraão dizimou como um ato de gratidão a Deus mesmo
antes da lei ser dada. O dízimo também ajudou a pagar a manutenção do Templo e
dos levitas que cuidavam dele. Ele era compartilhado com os necessitados e
também usado para custear as festas que celebravam a presença de Deus no meio
deles.
Devemos admitir, contudo, que o Novo
Testamento é notavelmente silencioso acerca do dízimo como prática para a
igreja emergente. Em nenhum lugar é encorajado, mas não existe oposição para a
generosidade demonstrada pela ajuda mútua.
Fiquei perdido nisso por muito tempo,
cegado pelo pragmatismo das necessidades de custear as instalações, salários e
programas das instituições que eu frequentava. Sem o compromisso de dizimar nós
simplesmente não poderíamos sustentar as coisas que pensávamos ser tão
importantes para nós. Era muito fácil optar pelo dízimo do Velho Testamento
como comprovações textuais fáceis para atender nossas necessidades.
Uma
forma diferente de dizimar.
Minha conclusão atual é muito diferente.
Não, eu não creio que dizimar seja errado. Eu simplesmente o vejo como tudo o
mais no Velho Testamento - ele é uma sombra para algo muito mais real que Deus
queria nos mostrar em Jesus. E como toda outra sombra da Velha Aliança, quando
você descobre a verdadeira essência do dar, você verá que o dízimo é um pobre
substituto por comparação.
“Você
quer dizer que eu não devo dizimar?” Eu amo esta pergunta, pois ela
desmente a motivação que o dízimo, muitas vezes, esconde. Ele é uma conta, uma
obrigação que devemos a Deus. Uma vez paga, podemos ficar com os 90% e gastar
da forma que quisermos. Não pagar, nas palavras de Malaquias, é roubar a Deus
naquilo que lhe pertence.
O Novo Testamento mostra um quadro
totalmente diferente. Jesus nunca mencionou o dízimo como uma prática para seus
seguidores. E embora as doações formem um tema constante nos livros de Atos e
Epístolas, o dízimo é mais uma vez não mencionado. Em vez disso, vemos algo
mais na prática deles. Os crentes davam não porque tinham que dar, mas porque
escolheram dar. Aqueles que foram convidados para um relacionamento com o Deus
Vivo, foram tão transformados e abençoados por sua generosidade, que
correspondiam aos que estavam ao seu redor com a mesma generosidade. As doações
resultantes foram muito superiores ao que o dízimo poderia alcançar.
Mesmo quando Pedro repreendeu Ananias
por mentir sobre o dinheiro que estava entregando, isso foi feito na certeza de
que a igreja não exigia isso dele. “A
propriedade não lhe pertencia? E, depois de vendida, o dinheiro não estava em
seu poder?” (Atos 5:4).
Quando Paulo recolheu ofertas para os
crentes que passavam fome em Jerusalém, ele deixou claro que não era uma ordem
sua, mas simplesmente uma oportunidade. “Cada um dê conforme determinou em seu
coração, não com pesar ou por obrigação, pois Deus ama quem dá com alegria” (2Co 9:7).
Enfim, dar porque temos que fazer não é
realmente dar. É apenas mais uma obrigação a cumprir, e muito longe do que Deus
tinha em mente o tempo todo.
Dar
generosamente.
De fato, Paulo ficou admirado em como os
macedônios, que viviam em situação de pobreza, corresponderam aos necessitados.
“No meio da mais severa tribulação, a
grande alegria e a extrema pobreza deles transbordaram em rica generosidade.
Pois dou testemunho de que eles deram tudo quanto podiam, e até além do que
podiam. Por iniciativa própria eles nos suplicaram insistentemente o privilégio
de participar da assistência aos santos” (2Co 8:2-4).
Isto soa como dízimo? O dízimo poderia
resultar numa ação tão extraordinária? Acho que não! Os crentes eram tão
abençoados pela generosidade de Deus para com eles que mesmo tendo suas
próprias necessidades, eles responderam com generosidade para os outros.
Eu amo como o Novo Testamento põe o foco
no lugar certo. Eu não dou dinheiro para Deus - Deus age generosamente através
de nós. É Ele quem começa o ciclo. Tendo nos abençoado com sua generosidade,
nós responderemos da mesma forma para os outros.
Mas há um problema aqui, não há? Se eu
não sinto que Deus está sendo generoso comigo, eu ainda assim dou para os
outros? Paulo disse que o dar e o receber no corpo é algo cíclico. Aqueles que
têm muito hoje poderiam muito bem ser aqueles com necessidade amanhã. O alvo é
compartilhar para que ninguém tenha tão muito ou tão pouco.
Mas quão muito é tão muito e quão pouco
é tão pouco? Enquanto penso, é óbvio que quase todos nós que vivemos em países
do primeiro mundo estamos financeiramente bem em relação ao padrão mundial, e
por isso poucas pessoas conhecem a generosidade de Deus. Por quê?
Como
age a generosidade de Deus.
A razão pela qual poucas pessoas
realmente entendem a generosidade de Deus vem de duas realidades. Primeiro,
eles medem isso pelo que reconhecem como seus desejos e necessidades. Comparar
nossas casas, carros e brinquedos com os dos outros leva a inveja e ganância.
Enfrentando nossas exigências, Deus raramente vai parecer generoso.
Paulo compreendia a generosidade de Deus
de uma forma muito mais profunda que o conforto material. Ele disse que
conhecia o segredo do contentamento, mesmo se estivesse com abundância ou
necessidade. Isto porque ele estava focado na agenda de Deus para sua vida e
não em sua própria, ele via as mãos generosas de Deus em cada área de sua vida.
Veja como ele descreve isso: “E Deus é
poderoso para fazer que lhes seja acrescentada toda a graça, para que em todas
as coisas, em todo o tempo, tendo tudo o que é necessário, vocês transbordem em
toda boa obra” (2Co 9:8).
Tenho vivido a maior parte de minha vida
espiritual como filho de um Pai mesquinho. Nem mesmo tenho tudo o que eu quero
e sendo desapontado pela resposta de Deus para algumas de minhas mais calorosas
orações, vivo num desapontamento e chateado com Deus. Sim, eu poderia expressar
louvor e ações de graça da mesma forma que a pessoa que está ao meu lado, intelectualmente,
mas por baixo dos panos eu me sentia chateado e continuamente frustrado pelas
coisas que Deus não fez e eu esperava que fizesse.
Foi apenas nos últimos seis anos que
Deus desmantelou minha agenda para minha vida, que eu tenho sido capaz de ver
um relance do que Paulo está falando ali. Porque estou tão ocupado tentando
trazer Deus para minhas programações, eu não poderia ver as incríveis coisas
que Ele está fazendo em minha vida diariamente. Quando começo todos os dias sem
minhas próprias preferências de como quero que as coisas funcionem, me encontro
constantemente maravilhado com o que Deus está fazendo em minha vida e
genuinamente agradeço por cada ação dele. Se Ele não me dá uma coisa, é porque
realmente eu não preciso dela.
É por isso que nossas expectativas são
frequentemente frustradas. Não é porque Deus não se preocupa conosco, mas
porque Ele tem compromisso em nos libertar da tirania do eu. Somente assim
experimentamos os recursos de Deus e descobrimos o quão generoso Ele é.
Como
isso funciona?
Viver na generosidade de Deus nos conduz
a uma vida de generosidade com nosso dinheiro, nosso tempo e vida espiritual.
Considerando que Deus cuida de nós de
forma incrível, nunca mais precisaremos viver preocupados com a vida pessoal.
Desta forma será mais fácil para nós vermos formas pelas quais Deus quer nos
levar a ajudar aos outros.
Lembram dos macedônios que deram tanto,
mesmo eles tendo necessidades? Isto aconteceu pelo compromisso que tinham em
dizimar? Não! Como Paulo escreveu, “E não
somente fizeram o que esperávamos, mas entregaram-se primeiramente a si mesmos
ao Senhor e, depois, a nós, pela vontade de Deus” (2Co 8:5).
Simplesmente, eles ouviram Deus e
fizeram o que Ele pediu. Isso foi maior do que Paulo esperava. Aqueles que
estão convencidos que dar a Deus é nada mais que pagar dez por cento como uma
obrigação, nunca entenderão doações como esta.
Há pouco tempo atrás, todo ano, eu
recebia ligações de pessoas que Deus conduzia para nós, tirando-as de
instituições abusivas. Elas falavam que Deus as indicou a pagar os dízimos a
partir de então para nosso grupo “Lifestream”.
Minha resposta é sempre a mesma. Depois de agradecer a eles pelos seus
questionamentos, eu os conduzo para fora de qualquer compromisso regular. “Se Deus colocou em seu coração de nos enviar
algo este mês, então faça. Se Deus indicou que fizesse no mês seguinte, então
faça. E se nos meses seguintes Deus te conduziu a fazer algo mais com seus
dons, então, de todas as maneiras, faça isso”. Nunca nenhuma dessas pessoas
contribuiu conosco mais que um mês ou dois. Esperançosamente eles estão
aprendendo uma melhor forma de dar.
Uma
vida de doações.
A cada dia Deus quer que você
experimente de seu generoso amor, e então te mostrar como Ele quer canalizar
sua generosidade através de você para alcançar os outros. Na forma que eu vejo,
as Escrituras não te obrigam a dar para um local específico. Ele vai te mostrar
onde dar quando você é conduzido por Ele e não seduzido pelo apelo e demanda
daqueles que sempre proclamam estar em crise.
Aqueles que se reúnem de forma mais
relacional e não possuem necessidade de gastar uma grande soma de dinheiro em
prédios, salários ou programações, muitas vezes encontram formas criativas de
ver Deus usando a generosidade deles. Eles dão para os que têm necessidade,
estendem a luz do reino de Deus no mundo, mesmo para sustentar projetos
ministeriais que sentiram chamados a apoiar.
Eles podem fazer juntos ou
separadamente. Conheço um grupo na Austrália que recolhia ofertas em uma conta
comum para distribuí-la em benefício do grupo. Após gastarem seis semanas
discordando sobre como distribuir isso, eles decidiram devolver o dinheiro de
cada um e deixar que eles doassem na forma que se sentissem conduzidos. Eles
preferiram gastar o tempo encorajando a fé de uns aos outros, em vez de gastar
a oferta uns dos outros.
Conheço outros que põem uma quantia
específica de dinheiro na carteira mensalmente e veem onde Deus gostaria que
eles dessem de forma acidental durante a semana.
Note que não estou dizendo que é pecado
dar dez por cento para o grupo onde você reúne regularmente, se Deus está te
pedindo. De fato, penso em pessoas que Deus tem abençoado, e que não estão
dispostas a compartilhar a carga financeira onde eles recebem algum benefício,
deveriam considerar se Deus quer mesmo ou não que elas façam parte disso.
Mas as maneiras de Deus para o dar faz
do dízimo uma mera sombra, por comparação. Aqueles que descobriram a Deus como
um Pai generoso darão além dos dez por cento, apenas por atender o que Deus
pede a eles. E muito mais, pois não se trata de uma conta a pagar, mas como uma
extensão de sua generosidade, eles vão dar com uma paixão que não apenas transfere
fundos, mas também constrói relacionamentos.
Por que abraçar a sombra, quando você
pode experimentar a realidade que está por trás? Isso é tão verdadeiro neste
reino, não é?
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