VIVENDO COMO IGREJA RELACIONAL
Escrito por Wayne Jacobsen. Traduzido por Ezequiel Netto
05 - Razões
para se afastar. Março de 2001.
“Você
deve permanecer com ele. Somente desta forma Deus vai te abençoar!”
Ouvi estas palavras e fiquei tão chocado
que, por um instante, duvidei de meus próprios ouvidos. Eu estava sentado à
mesa de uma mulher que estava preparada para se divorciar do marido há dois
anos. Eu sabia do abuso que ela sofria pelas mãos de seu novo marido, e que
temia o risco que seus filhos do casamento anterior passavam ao continuar
convivendo com ele.
Não tinha dúvidas de que a situação
estava confusa. Muitos de nós choramos, oramos e aconselhamos a ambos a fim de
desenrolar a situação. Poucos dias antes, outro casal me pediu para estar com
eles, pois compartilhariam com ela uma palavra que o Senhor colocou em seus
corações. Quando lançaram a bomba pra ela, e exigindo seu comprometimento tão
inequivocadamente, eu percebi que alguma coisa estava desesperadamente errada.
Voltei-me novamente para Beth (este não
é o seu nome verdadeiro). Ela estava tão abalada pelas palavras deles como
também eu. Antes que ela pudesse falar, eu abri a porta para que saísse.
“Certamente,
Beth, você sabe que palavras como estas somente são válidas no grau que
confirmam o que Deus já pôs em seu coração. Se não, você é livre para não
considerá-las”. No próximo instante ela nos contou que não concordava com o
que acabara de ouvir. Ela estava buscando o Senhor diligentemente e se
aconselhava com duas mulheres reconhecidamente piedosas na comunidade. Ambas
confirmaram sua decisão por se separar.
“Então,
sinta-se livre para seguir isso”, falei com ela. “Se Deus tem algo mais em mente, tenho certeza que esclarecerá isso para
você”.
Fora da casa dela, o casal se lançou
contra mim, quando estávamos no caminho de volta. “O que foi aquilo que você fez? Nós tínhamos uma palavra de Deus para
ela e você deu a ela todas as desculpas que ela precisava para ignorá-las”.
Nada do que falei pode acalmar a raiva deles, e eu sabia que se algo não
acontecesse nas próximas semanas, eu não seria capaz de continuar servindo ao
lado deles por muito tempo.
Da mesma forma que as Escrituras nos
convidam a entrar de braços abertos nos relacionamentos, elas também nos
advertem que nem todos os relacionamentos são saudáveis. Falhar em compreender
isso leva muita gente a um relacionamento destrutivo que não apenas vai
deteriorar a caminhada delas com Deus, como também cultivará uma atitude de
cinismo para com os outros, que também os impedirá de ter relacionamentos
saudáveis.
Não
é uma saída fácil.
As Escrituras falam de forma inequívoca
sobre o valor de caminhar com irmãos e irmãs na fé. O que cada um de nós sabe e
vê por nós mesmos é apenas uma pequena parte do que Deus é. Ao nos conectar com
outros irmãos e irmãs que estão descobrindo a mesma vida em Deus, começamos a
ter uma compreensão mais completa dele. É por isso que Ele define seu corpo
como “a plenitude daquele que enche tudo
em todos”.
Quando aqueles relacionamentos funcionam
bem, eles nos encorajam a permanecer na caminhada, nos consolam nos momentos
sombrios e ajuda-nos a manter nossa confiança em Deus, quando somos tentados a
colocá-la em outro lugar. Não existe maior tesouro neste mundo do que
compartilhar este tipo de amizade com crentes que estão comprometidos com a
obra de Deus em suas vidas.
Tudo o que escrevo aqui pressupõe que
seja verdadeiro. Sei que tão facilmente estas palavras possam ser usadas como
desculpas para os que querem viver solitários no corpo de Cristo. Faça isto e
estará se arriscando. Não compartilho desta ideia, pois nosso Deus é um Deus de
reconciliação e quer manter todas as coisas juntas em si mesmo.
Como estamos descobrindo seu coração,
não vamos buscar desculpas para nos distanciar dos outros só porque o
relacionamento passa por um momento difícil. Nenhuma amizade profunda que tive,
que tenha atravessado por falta de compreensão, fraqueza humana e falha
pessoal, me causou feridas e confusão. Se socorrer os relacionamentos sempre
for algo difícil, jamais compreenderemos o quão maravilhoso um verdadeiro relacionamento
em Cristo pode ser.
Contudo, muitas vezes me deparo com
crentes que estão atormentados por relacionamentos onde outros crentes estão
manipulando e controlando suas vidas. Querendo ser humildes e abertos, eles dão
espaço em suas vidas para um tipo de aconselhamento errado, e são oprimidos
pela culpa quando não conseguem satisfazer o que os outros esperam deles.
É por isso que o Novo Testamento não
somente nos diz para amarmos uns aos outros profundamente, suportar uns aos
outros nos momentos difíceis, e perdoar as falhas uns dos outros à medida que
vão surgindo, como também nos adverte a reconhecer quando relacionamentos se
tornam destrutivos para nos distanciarmos deles.
Não
tenham parte com...
Paulo colocou isso nos termos mais
simples possíveis, “não tenham parte com
eles”. Ele usou esta mesma frase em uma variedade de circunstâncias para
nos ajudar a reconhecer os sinais de que um relacionamento que estamos tendo
com outro crente não está nos ajudando a conhecer Deus melhor e nem a segui-lo
mais de perto. Ele nos adverte a manter-nos afastados deles, não em julgamento
ou raiva, mas simplesmente porque eles não vão aceitar nossa paixão espiritual
e para não nos conduzir por maus caminhos.
Isto nem sempre é fácil de reconhecer,
especialmente quando vem de pessoas que cuidamos, ou até mesmo aqueles que nos
ajudaram no passado. Pode ser, muitas vezes, a mais bem intencionada pessoa em
nossas vidas que, involuntariamente, torna as coisas mais difíceis para nós em
fazer a vontade de Deus.
Jesus encarou a realidade com um de seus
amigos mais chegados. Quando contou a Pedro sobre sua viagem para Jerusalém, e
sua eminente morte na cruz, Pedro se lançou em sua defesa, prometendo que tal
fato não aconteceria. Seu melhor amigo se tornou a própria voz do diabo. Jesus
teve que deixar claro pra ele o quão sedutor e mal orientado era seu amor, o
que levaria Jesus a provar sua obediência ao Pai.
Reconhecer quando nossos relacionamentos
com outros crentes nos leva para águas traiçoeiras não significa que temos que
julgar as pessoas ou suas motivações. Temos apenas que reconhecer que suas
palavras e ações estão mais nos prevenindo do que nos encorajando em servir a
Deus. Não nos distanciamos deles por sermos superiores, ou porque eles se
tornaram maldosos, mas simplesmente sabendo que eles nos levarão a tropeçar em
nossas próprias motivações erradas. Seu desejo não vai produzir separatismo ou
superioridade, mas um ambiente da vida do corpo onde você vive que seja
propício para os verdadeiros encorajamento e crescimento espirituais.
Então,
com que devemos tomar cuidado?
1) Com o fermento dos fariseus (Mt
16:6-12; 2Tm 3:2-5): Jesus preveniu seus discípulos a ter cautela com isso
e Paulo se expressou muito bem quando falou daqueles com “aparência de piedade, mas negando seu poder”. Sobre quem eles
estavam falando? Ambos se referiam àqueles indivíduos que sempre induziam
pessoas a conformarem-se com seu padrão de moralidade. Porque a justiça deles
está baseada na conformidade, ela é apenas um pretexto exterior que não reflete
a verdadeira realidade interior. Eu conheci um irmão que deixou jovens casais
em situação embaraçosa por induzi-los a confessar que tiveram relações sexuais
antes do casamento, e que mantinham uma paixão escondida no armário.
Estas pessoas podem sempre justificar
qualquer coisa que fazem mesmo que muitas vezes dão testemunho da disparidade
entre o que aparentam ser e o que realmente são. Como fermento, esta tentativa
de parecerem eles mesmos bons enquanto tentam mudar os outros é incrivelmente
contagiosa e, antes que você perceba, você estará fazendo o mesmo com os
outros. Como a justificação só pode vir pela transformação que Deus traz ao
trabalhar em nosso interior, ninguém que tenha experimentado isso jamais vai
forçar esta experiência nos outros. Eles sabem que simplesmente não vai
funcionar.
2) Dos que causam divisões (Tt 3:10):
estas pessoas pensam que podem julgar entre aqueles que pertencem e os que não
pertencem a Deus. Desta forma, eles têm obsessão por controvérsia e fofoca, e
deixam um rastro de relacionamentos quebrados por onde passam. Estes não são
sempre fáceis de detectar, pois seus argumentos de pureza teológica disfarçam
sua verdadeira inclinação. Eles amam o poder institucional e acusam os outros
de promoverem divisão ao não se conformarem com o jeito deles de fazer as
coisas. Só para lembrar, trazer preocupações honestas ou fazer perguntas difíceis
não é ter espírito divisivo.
Como cada um de nós alcança apenas uma
faceta da glória de Deus, e entendemos que nossa parte é a jóia inteira, o
cristianismo está fragmentado em milhares de denominações com doutrinas
favoritas e preferências pessoais no estilo de adoração que tem dividido o
corpo de Cristo ao redor do mundo.
Quando estive no Nepal, antes de o
cristianismo ser legalizado no país, testemunhei um incrível e intenso amor e
unidade quando compartilhavam do sofrimento. Não demorou muito, contudo, logo
após o cristianismo ser legalizado, que denominações de toda espécie entraram e
dividiram o corpo de Cristo ao oferecerem um rendimento mensal para aqueles que
se filiassem a eles. Não faça parte de uma divisão. Não seja atraído pela noção
de que sua maneira de fazer as coisas é a melhor, ou a única coisa que Deus
está fazendo no mundo, ou se encontrará girando num redemoinho de justiça
própria e perderá a maior obra que Deus está fazendo no mundo.
3) De quem não podemos confiar (Fp
3:1-11): o erro principal da igreja primitiva foi abandonar a confiança na
habilidade de Deus fazer sua obra e se esforçar em fazê-la pelo esforço
pessoal. Em nada diferente do que também desvia os crentes atualmente. Aqueles
que confiam na carne serão uma constante pedra de tropeço àqueles que querem
aprender a vida de confiança. Quando você vê pessoas culpando outras ou
elaborando listas de coisas que você deve fazer para ser um melhor cristão,
saberá que está com pessoas que colocaram sua confiança em alguma outra coisa
além do que Deus faz por si mesmo.
4) Dos pecados racionalizados (1Co
5:1-13): Todos nós lutamos contra tentações e pecados, e nossa avaliação
permanente e honestidade sobre nossas fraquezas é o ingrediente chave para a
verdadeira vida no corpo. Quando pessoas racionalizam suas falhas para
justificarem a si mesmas, elas perdem a essência do que é viver como humildes
aos pés de Jesus. Deus não nos ama porque não fazemos nada de errado, Deus nos
ama porque Ele nos ama; e os pecadores são aqueles que Ele veio redimir. Não
temos que mudar a definição de pecado para fazer nós mesmos justos, mas
preferivelmente encontrar motivação em nossas próprias tentações para nos
aproximar do único que pode nos transformar. Infelizmente só pensamos desta
maneira para os pecados sexuais, mas a lista de Paulo aos coríntios também
incluía coisas como ganância, idolatria, estelionato e calúnia.
5) Dos que querem ter a primazia (Cl
2:16-22; 3Jo 9): Se por ambição egoísta ou ideia errada do que é a
liderança no corpo, muitas pessoas buscam ter o primeiro lugar em alguma
expressão do corpo. Embora este lugar seja reservado apenas para Cristo, eles
pensam que também pode ser deles, e agem de forma que suas opiniões prevaleçam,
suas preferências sejam atendidas e seus planos vistos como os planos de Deus.
Entendem que têm a responsabilidade de gerenciar a espiritualidade de outras
pessoas e sentem-se ameaçados por qualquer coisa que não seja a obediência
inquestionável. Você saberá que está perto de um desses quando te forçarem a
escolher entre submeter-se a eles ou fazer o que você honestamente sente que
Deus colocou em seu coração.
Afaste-se
tranquilamente!
Certamente, qual de nós pode
honestamente dizer que nunca caiu em uma ou mais armadilhas? Isto é o que faz
deles tão destrutivos - eles nos oferecem exatamente o que nossa carne anseia:
aceitação, sentimento de superioridade, e controle. Ande no meio de crentes que
vivem desse jeito e você encontrará as desculpas perfeitas para ser como um
deles. Devemos ficar distantes destes, pois roubam de nós a fome de ouvir e
seguir a Deus diariamente.
A razão pela qual Paulo nos dá estas
instruções é porque deveríamos seguir a liderança de Deus enquanto nos encoraja
a manter-nos afastados de relacionamentos destrutivos e não nos sentir culpados
por isso. Buscamos uma falsa noção de unidade no corpo de Cristo, pois muitos
de nós sentimos a necessidade de ter comunhão com aqueles que causam feridas e
destruição na vida do corpo.
Por favor, note que Paulo nunca pediu
que nos afastássemos das pessoas do mundo. De que forma eles conheceriam o amor
de Deus se não for através de pessoas como nós, amando-os no meio de suas
piores falhas e pecados? O perigo das distrações não vem do mundo, mas dos que
se dizem crentes, cuja noção distorcida da vida em Deus provê distrações fáceis
em relação à essência de nosso chamado.
Quando João escreveu que muitos
anticristos já tinham vindo ao mundo, ele não falava de pessoas perversas que
se opunham ativamente a Jesus Cristo. Em vez disso, ele estava identificando
aqueles que aparentemente estavam na fé, mas que criavam uma dependência a si
mesmos em vez de levar as pessoas apenas para Cristo. Eles tinham espírito de
anticristo porque tentavam assumir um lugar na vida dos fiéis. É um comentário
trágico, mas, em nossos dias, muitos líderes da igreja atual sentem que vão
atender seus chamados deixando pessoas dependentes deles. O resultado será sempre
desastroso.
Certamente que ter a liberdade de se
continuar não significa que devemos prosseguir. Pessoas que agem
destrutivamente são, elas mesmas, pessoas quebradas e destruídas. Eles também
precisam de amor. Se Deus te deu graça para ficar perto delas, para amá-las,
você pode fazer isso sem comprometer o seu próprio relacionamento com Deus. De
todas as maneiras, faça isso!
Mas quando você percebe que outro crente
está te afastando do objetivo principal de conhecer a Deus, você não tem que
dar muitas explicações. Não precisa confrontar, acusar ou tentar provar que
você está certo. Você também não tem que reagir e se tornar como um justiceiro.
Tudo o que tem que fazer é se afastar deles sem alardes, e gastar seu tempo no
corpo de Cristo com aqueles relacionamentos que te estimulam a se aproximar de
Deus e reconhecer suas obras em sua vida.
Como as demandas da vida nos pressionam
por todos os lados, o tempo é muito curto para desperdiçar energias com outros
crentes cheios de manipulação, fofocas e divisão. Quando você tem chance de
estar com outros crentes, você não prefere encher-se de encorajamento,
revelação e humildade?
Acima de tudo, a vida no corpo de Cristo
não pode te levar a duvidar da habilidade de Deus trabalhar em você, mas te
ajudar a confiar nele cada vez mais.
Depois que este texto foi publicado, eu
tive a seguinte troca de e-mails com um leitor que esclareceu alguns pontos do artigo.
Eu resolvi incluir aqui:
“Fiquei
bastante incomodado quando li ‘Razões para se afastar’. Acho que os problemas
vieram por causa de certa convicção que eu tinha acerca da Palavra que você
inadvertidamente deixou de lado. Antes de tudo, todo conceito por trás dos dons
do amor e graça de Deus é para nos capacitar a ser como ele, em sua plenitude.
É o poder para sermos livres para obedecer com todo amor e devoção a ele,
fazendo a reconciliação com os homens através de seu amor. Sei que você fez
referência a este tipo de fé, mas falhou em apresentá-la em relação à mulher
buscando o divórcio. Isto é problemático.”
A resposta de Wayne: Acho que a ilustração de abertura que escolhi foi
muito pobre. Contei esta história na introdução apenas para demonstrar quão
abusiva a liderança pode ser quando presume falar sobre a dor de alguém sem ao
menos ouvir o que a pessoa está passando e o que está ouvindo do Senhor. “Razões para se afastar” está relacionado
com manter distância de relacionamentos destrutivos no corpo de Cristo e não
tinha o propósito de ser usado como justificativa para o divórcio. Sinto muito
se a ilustração trouxe confusão ao artigo. Mas eu realmente aprecio o fato de
você trazer isso a mim. Embora eu acredite que nenhum relacionamento humano esteja
fora do âmbito da cura de Deus, eu também percebo em situações como as que usei
aqui que é preciso o comprometimento de ambas as partes para trazer
reconciliação, o que não foi possível naquele momento.
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